A MOÇA DA CORTINA

         Na
década de 1870 vivia na Praça da Matriz um rico senhor de engenho. Seus
numerosos escravos se referiam ao patrão como “Nosso amo e senhor” e os bajuladores
da época diziam apenas “nosso mestre”. Seus devedores o chamavam “o escroque”,
o populacho de Seu Zinho e os mais esclarecidos de tirano, corrupto,
sacripanta, aproveitador, amoral e outros apelidos menos carinhosos.
         Seu
Zinho, diziam, tinha parte com o Tinhoso. Seu tataravô fez um pacto com
Satanás, todos os componentes da família teriam do bom e do melhor enquanto
vivos, mas depois de mortos seus espíritos permaneceriam na casa para atraírem
desatentos turistas às hostes infernais. O casarão estava lotado de almas
penadas.
         Nos
grandes festejos anuais sempre desaparecia alguém misteriosamente… Ninguém
atinava o porquê de uma pessoa sumir sem deixar rastro, e então, aconteceu que
um rapaz muito casto e correto afirmou em confissão que uma donzela acenara eroticamente
para ele da janela de um casarão. O padre ficou horrorizado com o aceno erótico
e ordenou de imediato, ao jovem mancebo, um banho de água benta. Após o banho,
quando o moço passou frente à janela, notou que por trás da cortina de renda
uma caveira o fitava com olhos flamejantes; – Morreu na hora!
         O padre
descreveu a estranha história ao sacristão e pediu sigilo. O sacristão narrou à
esposa e pediu segredo absoluto. A esposa contou a costureira e a costureira
espalhou para toda a cidade de Iguape. Quem passava alcoolizado frente da casa,
depois da meia noite, ouvia gritos de escravos sendo espancados… Via uma
figura por trás da cortina fazendo gestos chamativos e sensuais… Um vulto
acenava e mostrava ao incauto a porta de entrada do casarão, era a famosa
assombração da “moça da cortina”.
         Um rapaz
de nome Gentil, mas, que de gentil não tinha nada, levantou através dos livros
do famoso historiador iguapense Roberto Robusto, tudo o que o que foi possível
sobre a família do coronel Ariovaldo Joio, o famigerado tataravô do Seu Zinho,
o rico dono de engenho do século XVIII. Com sua árdua pesquisa, descobriu que
no porão da casa o coronel Ari enterrara seu ouro, suas joias e seus inimigos. Também
descobriu que se alguém de dentro da casa mencionasse o nome da pessoa que
estava postado em frente da casa, a porta de entrada se abriria automaticamente.
Gentil bolou um plano maquiavélico para se apossar do tesouro.
         Numa
noite escura e sem lua, Gentil passou de propósito várias vezes frente ao
casarão. Notou que “a moça da cortina” o observava… Gentil carregava uma mala
bastante pesada e murmurava; – “É meu!… É meu!… É meu!” e fez de conta que
nem notou quando a bela rapariga abriu a janela;
        
“Mancebo! Algum problema com sua mala?” Perguntou a visagem.
         – “Está
muito pesada! Nela estão todas as joias da minha família e não encontrei nenhum
albergue na cidade… Vou depositá-las no cofre do Banco pela manhã.” Disse o
rapaz.
         Ouro era
a palavra mágica para os descendentes do coronel Ariovaldo e a moça lançou seu
charme irresistível ao forasteiro;
         – “Meu
nome é Cynthia e se me brindar com um beijo, indico uma boa pousada para o
senhor passar a noite.” A alma penada sabia que se o jovem a beijasse ele
passaria imediatamente a ser seu escravo.
         – “Como
gostaria de satisfazer seu desejo linda donzela, mas, sou noivo e minha
prometida, a bela Rita de Cássia, ficará de veras magoada se eu assim agir…
Aceite esse mimo de minha parte em sinal de amizade.” Propôs o rapaz, ofertando
uma linda flor que trazia na lapela do paletó.
         – “Como
o senhor é gentil!” Foi só dizer gentil que a porta abriu-se de imediato, e,
Gentil entrou porta adentro com sua mala.
         Gentil
foi direto ao porão, dentro da mala tinha um lampião e uma picareta… A moça
tentava com suas mãos de névoa deter o intruso… Gritou todos os palavrões e
maldições que conhecia… Gentil não deu à mínima, desenterrou o tesouro do
coronel, saiu solerte pela porta da frente e ao sair derramou água benta na
soleira… A porta se fechou com estrondo e ele ainda observou a moça virar uma
caveira e depois simples pó.
         Assim
foi quebrado o encanto secular e o coronel Ariovaldo Joio e todos os seus descendentes
foram para o inferno… Gentil casou com Sirlei Campos e foi feliz para sempre.
         Francisco
pensou; – ‘Sujeito esperto esse Gentil e com o nome certo para abrir a porta de
entrada… Eu jamais conseguiria! Como fazer a visagem dizer Francisco?’        

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