UMA CIGARRA CONTOU…

                Contam às
lendas que num tempo muito remoto, quando a raça dos homens ainda não existia,
os animais se falavam entre si e viviam alegremente em harmonia na densa
floresta.
         No
princípio eram todos inocentes, seguiam as sagradas leis de Tupã, não roubavam,
não matavam, não valorizavam o ouro. Alimentavam-se frugalmente, desconheciam a
inveja, a ganância, a arrogância e a prepotência.
         O
primeiro sinal de decadência veio com a perda do respeito devido a Tupã. Só os
puros de coração podiam carregar o santo andor de Tupã, nas longas procissões
anuais. Jamais um pecador, ladrão, corrupto, pervertido, pedófilo, mentiroso,
se aventurou a quebrar a regra… Foi assim até o dia em que o povo descobriu
estarrecido que o honesto rei, em conluio com os parentes, os amigos e
afilhados, roubavam descaradamente tudo o que podiam e achavam o máximo da
esperteza tal pratica.
         Nos
primeiros tempos não existiam mandatários, era cada um por si e a vida era leve
e solta. Cada bicho sobrevivia do próprio suor na cata da alimentação diária.
Quem não se virava se lascava! O Bicho Preguiça era um destes, não colocava a
mão na massa, possuía muitos filhos e vivia das esmolas do Senhor Raposa, um mequetrefe
habitante da floresta.
         Seu
Raposa era tão sabido que inventou a monarquia. Pobre de maré, maré… Herdou
do pai a esperteza no trato com a ralé da mata. Arquitetou a eleição e o voto
de cabresto. Saiu comprando eleitores de toca em toca, prometeu mundos e
fundos, formou um partido e desde então passou a viver de nariz empinado, peito
estufado e ouro surrupiado… Adorava carregar o andor de Tupã.
         Alguns
reis ficaram famosos, dentre tantos, o rei Quati, o rei Tamanduá, o rei
Formiga, o rei Lobo Guará, o rei Raposa, e, uma única rainha, Dona Anta, de
infeliz Lembrança!… Apesar de serem de espécies diferentes, se consideravam
irmãos entre si e representantes de Tupã na Terra, assim diziam e assim
agiam… Quem não era da família só se ferrava.
         Em época
de eleição tudo mudava. Os candidatos a rei eram inimigos mortais uns dos
outros… Nesse breve período todos os podres, os segredos guardados a sete
chaves, taras e particularidades negativas vinham à tona… Passado o pleito,
os laços familiares falavam mais alto e o esquecimento das ofensas era
acompanhado de gordos cargos comissionados. Tudo era perdoado e esquecido,
incluindo os eleitores e as promessas de campanha.  
         A coisa
estava para lá de feia… A maior parte da bicharada tinha o rabo preso com o
rei e seus escudeiros, devido aos pequenos grandes favores solicitados na hora
do aperto… E, como tinham! A oncinha, o tateto, o veado, o jacaré, a coruja,
o urubu, o bem-te-vi, o pardal, o gavião, a andorinha… Bichos, peixes,
anfíbios, qualquer animal com rabo estava lascado! O rei comprava e ninguém
reclamava.
         Quem
detonou com o esquema foi a Cigarra… Como gostava de cantar! Cantou para quem
queria ouvir e para quem não estava nem aí… Contou os podres, as maracutaias,
os conchavos ao vento, às árvores, ao sol, à lua, à tempestade… O canto da
Cigarra chegou aos ouvidos de Tupã… Tupã despertou! Não gostou das novidades
e retirou o dom da fala de todos os animais e desde então nenhum bicho consegue
se expressar corretamente.
         Foi
assim que acabou a idade da lenda em que os animais falavam e se entendiam
entre si. A última coisa de que se lembram, é de Tupã a margem de um grande
rio, retirando com as próprias mãos um pouco de barro e moldando um ser
semelhante a ele mesmo… Isto aconteceu há muito e muito tempo. Tomara que
essa nova criação honre Tupã e transforme o mundo em algo melhor.
Gastão Ferreira/2013

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