O rio da minha aldeia
Em
outros tempos os piratas subiam o rio; matavam os homens e raptavam mulheres e
crianças. A tataravó de minha bisavó escapou por pouco de virar escrava dos
corsários ingleses que devastaram nossa aldeia. Um primo dela foi levado e só
retornou após trinta anos; foi o primeiro professor de inglês da povoação.
outros tempos os piratas subiam o rio; matavam os homens e raptavam mulheres e
crianças. A tataravó de minha bisavó escapou por pouco de virar escrava dos
corsários ingleses que devastaram nossa aldeia. Um primo dela foi levado e só
retornou após trinta anos; foi o primeiro professor de inglês da povoação.
Meu
bisavô tinha verdadeiro pavor do rio; adolescente teve um encontro noturno com
o Negrinho do Rio. O encantado tentou virar a canoa do bisa. Meu antepassado,
traumatizado, passou anos sem tomar banho, seu apelido era Dito Cheiroso.
bisavô tinha verdadeiro pavor do rio; adolescente teve um encontro noturno com
o Negrinho do Rio. O encantado tentou virar a canoa do bisa. Meu antepassado,
traumatizado, passou anos sem tomar banho, seu apelido era Dito Cheiroso.
Meu
avô pescava robalos, mandis, lagostins, carás, traíras e bagres; vendia
defumados aos poucos turistas que cautelosos se aventuravam por estas bandas
selvagens. Conheceu vovó Danuza num navio mercante vindo de Santos com destino
à Registro; a família foi contra o casamento. Vovó era cantora e engambelava os
ricos passageiros com sua voz fanha e aveludada. Vovó possuía um belo pé de
meia, presenteou aos familiares de vovô com novidades vindas da Europa; vovô
tinha vinte anos e vovó quarenta, mesmo assim tiveram um casal de filhos. Vovó
Danuza foi a primeira dondoca da vila a apresentar um sarau; cantou, dançou,
recitou… Mostrou os velhos tornozelos aos presentes, que horrorizados pela
falta de pudor quebraram os finos cristais de vovó. Ela desculpou-se e colocou
a culpa na bebida servida fartamente no sarau e cunhou a famosa e curta frase
que até hoje faz parte de todos os excessos: – To torrada!
avô pescava robalos, mandis, lagostins, carás, traíras e bagres; vendia
defumados aos poucos turistas que cautelosos se aventuravam por estas bandas
selvagens. Conheceu vovó Danuza num navio mercante vindo de Santos com destino
à Registro; a família foi contra o casamento. Vovó era cantora e engambelava os
ricos passageiros com sua voz fanha e aveludada. Vovó possuía um belo pé de
meia, presenteou aos familiares de vovô com novidades vindas da Europa; vovô
tinha vinte anos e vovó quarenta, mesmo assim tiveram um casal de filhos. Vovó
Danuza foi a primeira dondoca da vila a apresentar um sarau; cantou, dançou,
recitou… Mostrou os velhos tornozelos aos presentes, que horrorizados pela
falta de pudor quebraram os finos cristais de vovó. Ela desculpou-se e colocou
a culpa na bebida servida fartamente no sarau e cunhou a famosa e curta frase
que até hoje faz parte de todos os excessos: – To torrada!
Vovó
Danuza foi uma figura marcante; tinha eiras e beiras, colecionou amores, ganhou
fortunas e gastou horrores comprando o silêncio dos freqüentadores noturnos do
Porto Velho; os marinheiros faziam piadinhas infames a seu respeito e o dia
mais feliz de sua vida foi quando o porto foi desativado. Vovô Dito Galho
jamais desconfiou das traições de vovó… Ambos morreram, viraram pó e partiram
para o esquecimento total… Nem a riqueza de vovó Danuza, ou, as tristezas de
vovô Dito Galho permaneceram… Tia Thelma deu um golpe em papai Ditinho Boy e
ficou com a prataria, o casarão, o diário secreto de vovó e muito mais; nasci
pobre!
Danuza foi uma figura marcante; tinha eiras e beiras, colecionou amores, ganhou
fortunas e gastou horrores comprando o silêncio dos freqüentadores noturnos do
Porto Velho; os marinheiros faziam piadinhas infames a seu respeito e o dia
mais feliz de sua vida foi quando o porto foi desativado. Vovô Dito Galho
jamais desconfiou das traições de vovó… Ambos morreram, viraram pó e partiram
para o esquecimento total… Nem a riqueza de vovó Danuza, ou, as tristezas de
vovô Dito Galho permaneceram… Tia Thelma deu um golpe em papai Ditinho Boy e
ficou com a prataria, o casarão, o diário secreto de vovó e muito mais; nasci
pobre!
Essa
é apenas mais uma história do rio de minha aldeia; o grande rio guarda suas
memórias para quem sabe decifrá-las. Vem de longe o meu rio; corta as
montanhas, dança nas várzeas, desenha curvas, dorme nas planícies e corre nas
serras… Seu destino é o mar!
é apenas mais uma história do rio de minha aldeia; o grande rio guarda suas
memórias para quem sabe decifrá-las. Vem de longe o meu rio; corta as
montanhas, dança nas várzeas, desenha curvas, dorme nas planícies e corre nas
serras… Seu destino é o mar!
Sou
como um afluente desse imenso rio; sou um riacho! Um córrego que sonhou com o mar.
Sou o portador da chama existir; daquela flama chamada vida que recebi de meus
antepassados, tenho o dever de levá-la para a eternidade… Sou a soma de todas
as bondades, todos os fracassos, todos os pecados dos meus ancestrais… Sou
como o rio da minha aldeia; meu sonho é o oceano da imortalidade e minha vida é
somente um passo dentro nesse logo caminho evolução.
como um afluente desse imenso rio; sou um riacho! Um córrego que sonhou com o mar.
Sou o portador da chama existir; daquela flama chamada vida que recebi de meus
antepassados, tenho o dever de levá-la para a eternidade… Sou a soma de todas
as bondades, todos os fracassos, todos os pecados dos meus ancestrais… Sou
como o rio da minha aldeia; meu sonho é o oceano da imortalidade e minha vida é
somente um passo dentro nesse logo caminho evolução.
Gastão Ferreira/2014
Gastão Ferreira começou a publicar seus textos aos 13 anos. Reconhecido por suas crônicas e poesias premiadas, suas peças de teatro alcançaram grandes públicos. Seus textos e obras estão disponíveis online, reunidos neste blog para que todos possam desfrutar de sua vasta e premiada produção.