A DONZELA DE BRANCO                                             

         Anacleto
não acreditava em fantasmas, procissão dos mortos, mula sem cabeça, saci,
cavalo fantasma, cão do diabo, anjinho de procissão, feiticeira do Icapara,
Momuna, Jureia e Canto do Morro… Naquela época cada bairro tinha sua bruxa de
estimação; Cléto era um descrente de dezesseis anos.
         Era
o ano de 1850 e os escravos costumavam se reunir na Fonte do Senhor; era por lá
que praticavam seus cultos aos orixás africanos, cantavam, dançavam e tocavam
seus atabaques.
         Cléto
estava perdidamente apaixonado pela mucama da senhora Rosalva Thereza das Rosas
Rosa, esposa do coronel Leocárdio Rosa, e, Anacleto sabia que sua amada
participava dos encontros noturnos na Fonte do Senhor.
         A
lua cheia prateava a trilha de terra batida, uma onça urrou na montanha; Cléto
caminhava cismado, existiam cobras venenosas na mata e muitos animais selvagens
saiam à noite para caçar… Ele ouviu um alto gemido e seu sangue gelou nas
veias; era valente e desconhecia o medo… Olhou em direção a grande touceira
de bambus e perguntou; – “Quem está aí?”
         Anacleto
notou o vulto de branco, era uma mulher de longos cabelos esvoaçantes e com uma
grande faca na mão que saia do bambuzal… Cléto e sua valentia se escafederam
no mundo, e, o mundo lembrou “A Lenda da Donzela de Branco”.
         A
mocinha Dagoberta Emengarda Fontes, apelido Lindinha Zero bala, pois ainda era
totalmente virgem e tolinha, foi engambelada por um mascate, um
caixeiro-viajante jovem e bem apessoado, representante comercial de uma firma
do Rio de Janeiro e que vinha duas vezes ao ano negociar na rica e próspera
cidade.
         Lindinha
entregou-se a esse amor pecaminoso e na loucura da paixão desenfreada concedeu
um beijo, na verdade um simples ósculo na face do viajor e mais nada… Contou
em segredo para sua melhor amiga, Cristina Rebouças Matinhos que comentou; –
“Meu Bonje santo! Como explicarás a teu pai a gravidez precoce? Sabes que um
beijo engravida? Em algum lugar uma cegonha está escolhendo o fruto desse
pecado para fazer a entrega…”
         Lindinha
enlouquecida apunhalou o caixeiro-viajante, fugiu para a montanha e nunca foi
encontrada; Cristina R. Matinhos confessou que sabia o terrível mistério por
trás do tresloucado gesto da amiga… Dagoberta Emengarda Fontes virou santa;
Santa Lindinha, protetora das mocinhas inocentes e sonhadoras… Foi avistada
vagando perto da Fonte do Senhor em noites de lua cheia e virou lenda urbana…
O caixeiro não morreu e acabou casando com Cristina Rebouças Matinhos, que o
amava em segredo, foram muito felizes e a triste história de Lindinha foi
esquecida.
         Anacleto
nunca mais saiu à noite, presenciara a visagem saindo do bambuzal… Desde este
fatídico encontro, passou a acreditar no sobrenatural; o que ele nunca ficou
sabendo foi que a donzela de branco que ele viu era sua prima Maria das Dores,
casada com o feitor Olavo. Das Dores estava apaixonada por Gregório Catinga,
mestiço jovem e bem apessoado. Era mais um encontro furtivo no bambuzal e a
grande faca apenas sua arma de defesa, caso encontrasse algum tarado, pois era
tida e mantida como esposa casta e honesta.
Gastão Ferreira/2014  
          
          
          
        
          

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