Visita de parentes
         Mamãe
Cananéia, o irmão Vicente, a filha Pariquera, e o filho mais velho Registro,
resolveram passar alguns dias com a Princesa do Litoral; no final deste ano de
2018 ela estará completando 480 anos, e nada melhor do que uma rápida visita
para sentir o clima da festança que se aproxima:
         –
“Filhota! Estamos pensando em reunir toda a parentada para a festa dos seus 480
anos de vida.”, falou mamãe Cananéia.
         –
“Não sei se será uma boa ideia, mamãe! Alguns súditos podem não gostar da sugestão…”
         –
“Como assim? Não gostar!”
         –
“Toda a vez que ocorre uma festa no reino, ouço comentários, tipo; podia ter
aplicado o dinheiro na saúde, na merenda escolar, nas estradas rurais…”
         –
“E você ainda liga para essa gente politiqueira! O que eles querem é um cargo
comissionado, no mínimo os reclamantes concorreram a cargos eletivos, e não
obtiveram sucesso…”
         –
“Como a senhora sabe disso, mamãe?”
         –
“É assim que funciona a alma caiçara; se eu gritar vão me dar um cala a boca, e
estarei feito na vida…”  
         –
“Era assim, o novo rei não é adepto desta prática; a coisa está ficando muito feia…
Muitas ofensas, desrespeito a minha pessoa, alguns filhos revoltados…”
         –
“Filhos, minha mãe! Que filhos?”, perguntou Pariquera.
         –
“Ah, mimosa! Os filhos do reino… Parece que bebe!”
         –
“Tem mais de vinte anos que você não tem filhos, querida mamãe Princesa…
Todos os teus jovens nascem no meu reino, esqueceu!”
         –
“Querida, estamos numa reunião familiar… Beba a sua catáia, coma a sua porção
de manjubas, e fique quieta.”
         –
“Mamãe, eu cresci, já sou uma senhora, e devo cuidar dos meus interesses em
primeiro lugar; não basta atender os doentes do teu reino, trazer ao mundo os
teus filhos, e agora querem que eu patrocine uma parte da festa do teu aniversário!
Meu irmão Registro, o rico, pode muito bem fazer a minha parte…”
         –
“E por que eu faria a tua parte, Pariquera?”, perguntou displicentemente
Registro, fazendo cara de nuvem.
         –
“Porque você vive de dar golpes na mamãe…”, disse Pariquera.
         –
“Golpista, eu! Jamais…”, desmunhecou Registro.
         –
“Muito esperto! Já roubo a Festa das Nações, o Carnaval; quer porque quer o
Revelando São Paulo, e sem dar nada em troca… Eu, hem!”
         –
“Deixa de ser besta, Pariquera! Por que eu teria de dar algo em troca? Por
acaso, tio São Vicente, que todo o ano mata a fome de centenas de carentes do
reino de mamãe Princesa, ganha alguma coisa?”
         –
“Tio São Vicente, está apenas devolvendo o que tirou do reino há séculos
passados…”
         –
“Além de tola, uma burra! Foi mamãe quem mandou incendiar São Vicente…”
         –
“Sim, e ele exterminou nossos índios…”
         –
“Calma, meus netos, sua mãe e seu tio Vicente, nunca se deram bem, acho até que
é um problema cármico, o Exu dele, e a Pomba-gira dela, são inimigos mortais,
mas não vamos jogar mais lenha na fogueira. Vicente era um demônio na
juventude, mas tomou juízo, e hoje é um São Vicente… Os presentes que manda
para a irmã Princesa, na Festa do Bom Jesus, aquelas milhares de
cestas-básicas, é a sua maneira de pedir desculpas; tenho certeza disso,
coração de mãe não se engana.”, falou vovó Cananéia.
         –
“Que bom que a senhora está aqui, vovó Cananéia! Só mesmo a senhora para dar um
jeito em mamãe Princesa…”, disse Pariquera.
         –
“É, minha netinha Pariquera, e meu neto mais velho, Registro, a mãe de vocês, a
Princesa do Litoral, passou por muitas nestes últimos 480 anos; assaltada por
piratas, avacalhada, estuprada, roubada por namorados, maridos e amantes…
Está aí, inteiriça, na melhor idade, vendendo saúde, esperta e atuante, difícil
de ser enganada…”
         –
“Ora, ora, vovó Cananéia! A senhora também está para lá da melhor idade; cidade
de pescador, aprendeu a vender muito bem o seu peixe… Vamos nos ver na festa
de 480 anos. Eu gostaria de saber qual o segredo de tanta vitalidade, e também
se mamãe Princesa pode realmente confiar em alguém, aqui no seu reino?”,
perguntou Registro.
         –
“Caldinho de manjuba, faz milagre, meu neto… Quanto a confiar em alguém, sei
lá! Toda a vez que a Princesa confiou cegamente em alguém, se lascou… Vamos
mudar de assunto!”
         –
“Gente! Venham comer. Hoje temos tainha na folha de bananeira, pirão de
cascudo, casadinho de manjuba, arroz com milho verde, feijão gordo, e
sobremesa, doce de goiaba…”, informou Odalisca, a serva.  
         –
“Essa Odalisca, não me passa firmeza…”, disse Pariquera.
         –
“Já está no meu bolso, amor! Depois te conto…”, sussurrou Registro, mas vovó
Cananéia notou, e sorriu.
Gastão Ferreira/2018

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