Seu Chico Bento, o
romeiro
        
         Francisco
Honório da Silva, nascido no ano de 1922 na cidade de Guapiara/SP, em 2018
completou a sua 73 romarias consecutiva ao santuário do Bom Jesus, em Iguape.
Ao completar seis anos de idade, sua mãe Dona Maria do Espirito Santo, fez uma
promessa ao Bom Jesus. Dona Maria faleceu sem cumprir a promessa, que só foi
paga sete anos depois, em 1935.
         Em
1935, seu pai Vicente e um amigo, mais Chico Bento e três irmãs, mais dois
cavalos cargueiros, para transporte de mantimentos, amarrados em estilo piquã,
ou seja, amarrados boca a boca, seguiram a pé, pela Serra do Mar em direção a
cidade de Iguape, distante 286 km de Guapiara.
         O
menino Francisco, nosso Chico Bento, jamais esqueceu aquela romaria. Na
passagem pela Serra da Macaca, um dos cavalos despencou de uma ribanceira;
acidente horrível, coisa feia de se ver. O pai de Chico Bento desceu o barranco
e constatou que o cavalo não havia sofrido nenhum arranhão, estava ileso, e as
bagagens intactas; provavelmente um milagre do Bom Jesus.
         Em
1935 o mundo era pequeno e inocente; ainda não existia televisão, pouquíssimos
veículos. Os meios de transportes mais comuns, no interior do Estado de São
Paulo eram a canoa, o carro de boi, o cavalo e a charrete. Os romeiros que
saiam de Guapiara seguiam por caminhos não muito bem definidos, ou seja, faziam
atalhos; andavam no meio do mato, atravessavam montanhas, vadeavam rios,
caçavam animais silvestres para o almoço e o jantar, ouviam os urros das onças,
a gritaria dos bugios.
Por vezes
encontravam uma trilha por onde passavam as carroças e os carros de bois, e foi
numa delas que o grupo de romeiros se deparou com um bicho horrendo, bicho
zoiudo e barulhento, coisa do demônio; correram à se esconder no mato, e o
bicho passou por eles aos berros, depois ficaram sabendo que o nome do bicho
era caminhão. A primeira romaria demorou 20 dias, e ficou para sempre na
lembrança do garoto Chico Bento; que aventura!  
Em 1960
Chico Bento comprou seu primeiro caminhão, e com ele fez nove romarias de
pau-de-arara para a Festa do Bom Jesus, e depois de 1970, quando foi proibido o
uso de paus-de-arara para transporte de romeiros, as viagens continuaram por
ônibus, até as festas atuais.
Seu
Francisco Honório da Silva, o Seu Chico Bento, é um homem simples, uma pessoa
de muita fé, alguém que há mais de setenta anos nos visita, um romeiro entre
milhares. Não! Seu Chico Bento foi mais do que um simples romeiro, ele foi
aquele menino que atravessou matas, rios, as cachoeiras, dormiu sob um céu
estrelado, quase morreu de susto ao fugir do bicho zoiudo para pagar a promessa
feita por uma mãe doente; foi o filho que veio acompanhando o pai e as irmãs,
foi o jovem que dançou ao som das violas caiçaras, o recém casado, o pai de
família, o avô, o bisavô. Seu Chico Bento, o romeiro, sempre será bem-vindo a
Iguape.
Gastão
Ferreira/2018
  

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