Porta aberta
         Os
antigos romanos acreditavam que uma pessoa ao morrer ficava vagando pela
cidade, visitando os amigos, e os lugares que gostava de frequentar quando
vivo. Os egípcios, historicamente, foram o povo mais religioso que existiu, mas
os romanos ganhavam de lavada quando o assunto era o que um espírito podia
aprontar depois de morto. É deles, dos romanos, que nos veio o costume das
casas e do comercio fecharem as portas na passagem de um cortejo fúnebre; diziam
que a alma do defunto seguia atrás do caixão, e podia entrar na primeira porta
que encontrasse aberta.
         Hoje,
com a modernidade, muita coisa antiga é deixada de lado; os pais quase não
contam as velhas histórias, os muitos causos de arrepiar os cabelos, têm medo
das crias crescerem traumatizados. E foi isso que aconteceu com o menino
Francisquim. 
         Dona
Catita morava quase na esquina do cemitério, aprendera com a mãe que a porta da
frente da casa devia permanecer sempre fechada, e que nunca, nunca jamais
deveria abri-la durante a passagem de um cortejo fúnebre. Se quisesse poderia
espiar pela janela, mas abrir a porta, nem pensar. Uma tia-avó de Dona Catita
passara anos possuída por um espírito, por ter aberto a porta na hora errada. E
o pior, o morto era um alcoólatra, e a tia-avó de Dona Catita passou a beber
horrores, causando grandes constrangimentos à família.
         Quando
Dona Catita contou a história ao neto Francisquim, o garoto que era
extremamente bem educado, falou:- “Sem essa vovó! Tá pensando que eu sou um
otário! Eu sou do século XXI…”, e ficou na espreita, pois jurou que abriria a
porta no próximo enterro que passasse frente à casa.
         Dito
e feito, Dona Catita estava lavando roupas e nem percebeu que Francisquim
abrira a porta da frente, e que naquele momento passava um acompanhamento
fúnebre. O neto soltou um grito horripilante, e quando Dona Catita chegou na
sala, encontrou o guri trêmulo, de olhos arregalados, pálido, e sem voz, e a
porta da frente da casa escancaradamente aberta.
        
Catita não perdeu tempo, acendeu uma vela branca e encostou na porta, e
ordenou; – “Espírito, saia de minha casa assim como entrou… Siga a luz da
vela! Aqui não é o teu lugar.”, e foi fechando lentamente a porta, e sempre
repetindo as mesmas palavras; quando restava apenas uma fresta para fechar a
porta, a vela apagou, e Dona Catita rezou um Pai Nosso, e trancou a porta.
         Francisquim
recuperou a fala, estava apavorado, e contou para a vó que ao abrir a porta um
vento frio entrou na sala, junto um cheiro de morte, uma tristeza, uma
angustia. Pediu desculpas por ter duvidado das histórias que a avó contara, e
pediu para Dona Catita explicar melhor o que acontecera com a tia-avó que fora
possuída por um espírito bebum.
         Agora,
toda a vez que Francisquim visita Dona Catita, a primeira coisa que faz, depois
de entrar na casa da avó é verificar se a porta da frente está bem trancada.
Coisas estranhas aconteciam na Iguape de antigamente, coisas estranhas
continuam a acontecer na atualidade, a Princesa em breve completará 480 anos, e
tem muita lenda urbana rodando na cidade.
Gastão Ferreira/2018        
        

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