Os invisíveis
         Poderia
ser um sonho, talvez um pesadelo, não sei! Nem me perguntem como isso
aconteceu, só sei que Suzane escapou do facebook direto para a Princesa do
Litoral. Como assim! Você não sabe quem é Suzane? Meu Bonje, quanta falta de
informação! Suzane, a garota quase da melhor idade que tem sete mil amigos no
face… O quê? Não conhece! Eu, hem.
         Suzane
é minha amiga virtual, quase não posta nada, mas como comenta! É por isso que
estranho você não conhecer a Su; Lembra quando saiu a lista das dez mais feias?
Lembra da foto de mãe, filha e avó… A foto que ganhou o primeiro, segundo e
terceiro lugar, todos na mesma fotografia? Pois é, Suzane foi a única à elogiar
o trio; – “Família linda, parece que acharam a Fonte da Juventude.”
         Com
Suzane a vida é bela, é uma das poucas pessoas à ver inteligência onde ninguém
mais vê. A maioria das pessoas faz citação de famosos, tipo Platão, Sócrates,
Dalai-lama, O Papa Chico, Roberto Carlos… Suzane, não! Ela vai mais fundo; –
“Como diz, nossa presidenta Dilma, essa mulher orgulho do povo, essa quase
deusa…”, e tasca uma frase da famosa anta. 
         Suzi
é aquela que comenta na foto da amiga horrorosa; – “Quando eu crescer quero ser
que nem você.”, e a gente lê e fica imaginando; – “Que será que ela viu que eu
não vi!”, a amiga lê a mensagem e posta mais dez fotos aterrorizantes, se
achando a mais linda flor do Litoral Sul. Pois é, Suzane sem querer apareceu no
mundo real.
         Para
a maioria dos habitantes do País do Facebook, o mundo é lindo, não existe gente
feia, não tem pessoa mal educada, todas as ruas não tem buracos, sem coco de
cachorro, sem bêbados tropeçando pelas calçadas, sem pedintes, todas as
crianças são bonitas sem exceção, até mesmo aquelas bocas sujas, trombadinhas,
ladrão de bicicleta e…. (Calma! Calma! São apenas crianças, não se esqueça.).
No mundo real, toda essa gente, é chamada de “os invisíveis”. Por que são assim
apelidadas? Porque todos fazem de conta que tais pessoas não existem. Não me
diga!
         Digo,
sim! Você já viu alguém beijando uma criança de rua, toda suja, nariz
escorrendo aquele ranho amarelado? Duvido! Você já viu alguém abraçando um
pedinte fedorento? Não vamos exagerar! Só uns tapinhas carinhosos nas costas do
mendigo, sem abraços ou beijos… Duvido! Pois é, todos invisíveis, nossos
irmãos invisíveis.
         Suzane
estava ali na feirinha do produtor rural; sim, aquela dos domingos na Praça da
Matriz. O curumim pediu “dois reau” para comprar um pastel que custa “cinco
reau”, Suzane penalizada deu R$10,00 ao indiozinho. Um jovem sem teto, sem
banho, sem noção, viu o gesto de bondade, e se aproximou sorrateiro; – “Com
licença, minha senhora! Eu poderia estar assaltando, eu poderia estar
estuprando, eu poderia estar roubando, eu poderia estar me prostituindo, mas
não, não! Eu estou lhe pedindo cinco reais para comprar pão…”
         Pela
primeira vez, em muitos e muitos anos, Suzane negou um pedido de auxílio; – “É
verdade, o mocinho poderia estar assaltando, estuprando, roubando, mas também
poderia estar trabalhando; se enxerga vagabundo!”
         Armou-se
o maior barraco, coisa feia de se assistir; Suzane apanhou feito aqueles
cachorros de antigamente, pois hoje se tascar a mão num cachorro vadio, é
cadeia na certa. Suzane foi jogada no chão, chutada, esfolada, beijada pelo
jovem pedinte. Foi difícil separar o joio do trigo, digo, a Su do mendigo. No
final, a polícia chegou, deu voz de prisão à Suzana; – “Como que a senhora, uma
pessoa de posses, teve a petulância de chamar de vagabundo um sem teto, um sem
pão, um sem tostão? Amigo pedinte, faça um B.O. e peça algumas cestas-básicas,
pois a lei sempre estará ao lado do mais fraco.” 
         Suzane
aprendeu a lição, nunca mais fugiu do Facebook, só que agora os comentários são
outros, respostas na lata, doa à quem doer. Resultado? 6.980 amigos excluíram
Suzane do Facebook; também, quem quer saber realmente da verdade num mundo de
faz de conta? Eu, hem!
Gastão Ferreira/2018
           
        

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