Odeio capivara
         Neste
natal/2017, pela primeira vez fizemos uma ceia comunitária; coisa linda! Cada
família cooperou com um prato de doce ou salgado, a carne ficou por conta de
Seu Caiado, proprietário do “Recanto das capivaras”, que mês passado foi multado
por manter animais silvestres em cativeiro.
         O
prato doce que mais chamou a atenção foi batata-doce; tinha assada, na brasa,
recheada, frita, caramelada, em calda e sem calda. O prato salgado foi aipim;
escondidinho de aipim, casadinho de aipim, aipim com alho, aipim com quiabo,
frito e assado no espeto. Aqui no sitio, todo mundo faz questão de ter seu
próprio roçado de aipim e batata-doce, são os mimos que acompanham o café das
visitas.
         Logo
após a meia-noite, cantamos os “parabéns à você” ao aniversariante, e foi
aberta uma champanha, e muita cerveja para todos. As famílias foram chegando, e
com elas os pratos à serem degustados. Do “Recanto das capivaras” veio uma van
com várias capivaras; capivara assada, frita, fatiada, a rolê, no espetinho, sem
espetinho, recheada, cozida, ao molho, sem molho.
         Nós,
os cachorros, só na espreita; se fosse combinado, ninguém acreditaria, mas para
comer só havia batata-doce, aipim e carne de capivara. No começo a coisa era um
tanto regulada, mas depois liberou geral. Os violeiros cantantes, caprichavam
nas letras musicais; todos os presentes fazendo de conta que entendiam o que
eles cantavam, o que é normal quando se ouve viola caiçara.
         Se
tem uma coisa que estufa barriga, é batata-doce, e acompanhada de aipim, pior
ainda. A carne de capivara é muito forte, tem um pitiu que enjoa rápido.
Cachorro não liga muito para estas coisas, mas parece que os humanos não
gostaram da tal ceia comunitária; reclamaram dos doces e salgados, e também da
carne de capivara.
         A
ceia acabou em confusão; Vai-Vai Cheiroso, nosso DJ, e apresentador oficial do evento,
aproveitou a parada de descanso dos violeiros, que a esta altura já estavam
bêbados de tanta pinga com mel, para manter saudáveis as cordas vocais, e
mandou ver no funck. As famílias se retiraram, depois os mais jovens pularam as
janelas das casas, e voltaram à praça, e começou a zoeira.
         Acabou
a cerveja, acabou a cachaça, a vodca, o conhaque; teve início a guerra de
batata-doce contra aipim. Os abraços de confraternização, os ósculos e os
beijos de língua, o cheiro de mato queimando, os gritinhos sacanas na
escuridão.
         O
pessoal ficou uma semana comendo carne de capivara; guisado de capivara, arroz
com capivara, capivara no chuchu, capivara com quiabo, salada de maionese com tiras
de capivara, capivara na abóbora. Nós os cachorros estávamos tão traumatizados
que nem passávamos na frente do “Recanto das capivaras” … Odeio capivara!
         A
ceia serviu para que Seu Caiado desse fim ao insipiente criatório de capivaras,
que a safra de batata-doce e aipim fosse esquecida rapidamente. Dona Márcia
Cristina de Oliveira Barros, falou que no final de 2018 o evento terá a sua
grife; cada família ajuda com um determinado prato, e que não pode ser
repetido. Batata-doce e aipim, não serão aceitos. E nem carne de animal
silvestre; tatu, paca, cotia, tamanduá, tateto e capivara, estão fora da 2ª
ceia natalina comunitária.
Omisso, um cão rural
Gastão Ferreira/2018
        
             
        

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