Meu Bonje, santo!
         Verão
chuvoso, Papai Noel se perdeu nos cafundós da Juréia; provou de perto as
picadas dos mosquitos pólvora e das mutucas. Teve duas Renas devoradas por
onças, o trenó quebrado numa ribanceira, os presentes natalinos esparramados na
mata. Com dez quilos a menos, pegou carona com um canoeiro, e são e salvo
aportou atrás do Citur; dali foi um pulinho até a Praça da Matriz. Puxou
conversa com um guri que brincava no local:
         –
“Bom menino, em que dia e mês estamos?”
         –
“Estamos em Fevereiro, não sei o dia certo. Uma pergunta! Por que está vestido
com esta roupa quente em pleno verão?”, falou a criança.
         –
“Ué! Não estás me reconhecendo? Eu sou o Papai Noel, e você, qual o seu nome?”
         –
“Eu sou o Ano Novo, mas pode me chamar de 2018…”
         –
“Nossa! É a primeira vez que encontro um Ano Novo tão jovem, normalmente em
Dezembro todo o Ano Novo já está com um pé na cova…”
         –
“Sei, sei… E nunca traz um presente para o Ano que se despede; todos os meus
antepassados reclamam desta falta de atenção.”
         –
“Vamos mudar de assunto! O que você está achando da cidade? É o que esperava?
Está gostando do que vê?”
         –
“Propaganda enganosa, Papai! Fui informado de que a Princesa era linda, cercada
de belezas naturais, rios de águas cristalinas, ruas limpas, povo educado e
gentil… Sei, não! Estou me sentindo um abestado.”
         –
“Que é isso, moleque! A Princesa é linda. Tudo bem, tem alguns buracos nas
ruas, coisa fácil de resolver.”
         –
“Dá para ver que o senhor é amigo do homem…”
         –
“Que homem, guri? Não conheço ninguém na cidade…”
         –
“Do prefeito! Confesse que é amigo dele….”
         –
“Tão novinho e já foi capturado pelo pessoal do contra, tadinho!”
         –
“Não entendo o que o senhor está insinuando; não sou a favor e nem contra, eu
torço pela Princesa, é que fui assaltado agora a pouco…”
         –
“Assaltado? Nessa sossegada praça?”
         –
“Um jovem morador de rua roubou o meu picolé…”
         –
“Não sabia que aqui também tem dessa raça…”
         –
“Uma tristeza! Achacam velhos, cobram para cuidar de veículos, fazem xixi nas
árvores. Ninguém acha uma solução, uma maneira de estancar estes turistas
indesejáveis…”
         –
“Por acaso, aquele senhor um tanto gordo, com cara de cachaceiro, é um deles?”
         –
“Aquele ali, com a coroa na cabeça? Não, não! Ele é o Rei Momo… Ficou na
cidade após o fim do carnaval. Ei, meu Rei! Venha conhecer o famoso Papai
Noel.”
         –
“Rei Momo, outro que nunca vi mais gordo! E então, Rei, o que achou do
carnaval?”
         –
“Realmente, o melhor carnaval do Vale do Ribeira; diversão saudável, segurança
para os foliões, muita cerveja e samba no pé…”
         –
“Sem esquecer as reclamações do altíssimo som no Centro de Eventos…”, lembrou
o Ano Novo.
         –
“Qual é, guri! Vocês reclamam de tudo. Não tem foguetes, reclamam! Tem fogos,
reclamam! Eu, hem!”
         –
“O senhor só aparece na cidade para se divertir, Papai Noel vem uma vez por
ano, mas eu passarei 365 dias aqui, e já estou com saudade de minha casa…”
         –
“Sossega, menino! A vida na Princesa é assim mesmo; Natal, Ano Novo, Carnaval.
Depois acalma um pouco! Você não viu nada, espere o Bonje chegar, e aí sim
verás o que é bagunça…”
         –
“Não diga! A famosa festa do Bonje, meu ídolo! Não vejo a hora de barraquear.”
         –
“Centenas de mendigos na cidade, milhares de cavaleiros, motociclistas,
bicicletas, romeiros, batedor de carteira, assessores fazendo escândalos,
bailes e mais bailes, foguetório dia e noite…”
         –
“Quero voltar imediatamente para o Polo Norte”, disse o Papai Noel.
         –
“Eu já estou de saída, e só volto no próximo ano; Adeus, pivete, e aproveite
bem o restante do ano, fui…”, falou o Rei Momo.
         –
“Meu Bonje, santo! Estou lascado.”, choramingou 2018.
Gastão Ferreira/2018         

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