Esperando a Festa chegar
 Céu azul e sem nuvens; inverno se
apresentando, fogão a lenha ativado, muito pinhão e batata doce. O pessoal sem
sair de casa, e se recuperando da greve dos caminhoneiros, todos guardando
dinheiro para as grandes compras da Festa do Bom Jesus; cuecas, meias e baldes
de plástico.
As pessoas
da cidade grande acham que sitiante é rico; esta semana foi marcada por duas
visitas. A do vendedor de produtos de limpeza, e seu polêmico cão, o Sujão, e
de Nove Dedos, o cachorro petista de Dona Brasilina, uma simpática senhora que
faz palestra para jovens e adolescentes problemáticos.
 Sujão tem seus fãs, por onde passa aponta o
que acha errado; rosnou feio para o velho cão Baltazar, e tudo porque Baltazar
não aprovou quando Sujão culpou o prefeito pelo péssimo estado da estrada
rural;
 – “Qual é a sua, Sujão? Sou o cachorro mais
velho aqui do sítio, e já passaram pela minha longa vida quatro prefeitos, e
esta estrada sempre esteve esburacada desde que me conheço por cão, por que, no
passado, você não cutucava a onça com vara curta? Medinho, é!”
 – “Sou um defensor das minorias, quero ver
todos felizes tanto no sítio quanto na cidade…” disse Sujão.
 – “Só que aqui no sítio, a única minoria é
você; se abrir a boca para falar besteira vai levar uma surra. Se manda, cara!”
 Sujão foi deitar embaixo do carro do dono, e
nós ficamos de olho nele, mas Nove Dedos, o cão petista de Dona Brasilina, deu
uma de doido; – “É isto o que acontece quando alguém desinteressado, alma
generosa, resolve ajudar; eu quero ver as provas, as provas. Tudo mentira!
Sujão nunca roubou um osso de cachorro de rua, não mente, não engana ninguém…”
 – “Cala a boca, Nove Dedos! Aqui ninguém tem
bandido de estimação.”, gritou a cadelinha Xuxete.
 Maior barraco! Nove Dedos quase virou Oito
Dedos, Sujão se sujou de medo, levou algumas mordidas. O homem dos produtos de
limpeza salvou o seu cão; – “É isto o que dá em se misturar com esta cachorrada
pobre e pulguenta; suba para o carro, Sujão!”
 Dona Brasilina também socorreu Nove Dedos; –
“Venha, Lulinha! Não se misture com esta gentalha. Quando o Movimento dos
Trabalhadores sem Terras dominarem o pedaço, esses cachorros, sem noção, serão
os primeiros à serem sacrificados.”
Sai-daí, o
filhote de cachorro que estamos treinando para presentear o Prefeito, aprendeu
mais uma lição; todo o cão puxa o seu dono. Esperamos que Sai-daí, tão amável,
gentil, prestativo, generoso e humilde, não altere seu caráter quando mudar de
casa. 
 Escoltamos os dois carros até a saída do
sitio, na volta entramos no mato para assustar algumas raposas; pois é! A vida
no sitio, tanto faz ser verão ou inverno, é a mesmice de sempre, mas logo, logo
passarão as caravanas de romeiros anunciando a chegada da grande festa, e teremos
muitos bailes ao som de viola caiçara.
Omisso, um
cão rural
Gastão
Ferreira/2018

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