Carnaval no sitio
         Com
medo da febre amarela, ninguém do sitio foi à cidade grande pular carnaval;
fizemos a nossa própria festa. Nós, os cachorros, ficamos de olho comprido, só
de butuca nos preparativos; a menina Gislene arrancou as penas do galo Agenor
para fazer um cocar, ela é a rainha da bateria do bloco “Aves do Paraíso”.
         Dona
Cotinha, melhor idade, fez questão de mostrar as pelancas com a fantasia de
“Eva ao entardecer”; três folhas de parreira cobriam as suas vergonhas. Vergonhas?
A velhota encheu a cara, e nem se tocou quando as folhas caíram, coisas de
carnaval… Foi muito aplaudida.
         Uma
turista foi proibida de desfilar na pracinha; o Pastor Silas, sempre cuidadoso
dos pecados alheios, vetou a moça; – “Dorothéa? Nome pagão, nem pensar! Só
aceitamos gente com nomes bíblicos; Miriam, Madalena, Raquel, Lia, Sara,
Dalila, Ana, Debora, Ester… Dorothéa? Nome de banho, nem pensar! Sem vez no
bloco “Amarra Jesus”, sinto muito”.
         O
Bloco do Tatu arrasou, também, como não arrastar multidões com o belíssimo
refrão; “quem é, quem é? É o tatu! É o tatu e é o tatu” … Coisa de arrepiar!
Os antigos choraram ao lembrar de quando o tatu era apenas um inocente
tatuzinho.
         Nem
tudo são flores no sitio, Juninho, neto do Seu Dito Trapaça, reuniu a moçada no
Centrinho de Eventos, e rolou um som altíssimo à noite toda; além do som alto,
o cheiro de mato indicava que o bicho estava pegando. Muitas reclamações, mas
quem se atreve à proibir algo? A juventude de hoje pode tudo.
         Também
participei de um Bloco, “Os humanos”. É uma homenagem aos nossos irmãos caninos
que se sentem ultrajados com o famoso Bloco, “Os cachorrões”, que denigrem a
nossa raça. A cadelinha Lisbeth se fantasiou de salsicha, e levou várias
mordidas; cachorrada sem noção! 
         Entre
mortos e feridos, todos se salvaram; quatro rapazes de olho roxo, duas virgens
a menos no sitio, um casamento desfeito, Zé Bonito saiu do armário novamente, a
moça Dorothéa arrumou namorado sitiante, o Ditinho Três Pernas; até hoje não
descobri o porquê de três pernas, todos os humanos que conheço só têm duas, aí
tem!
         O
sossego voltou; Dona Cotinha foi à missa, Gislene está sapeando no facebook,
Pastor Silas coletando o dízimo, o galo Agenor esperando as penas crescerem, e
jurando que no próximo carnaval vai se esconder no mato. E eu, Omisso,
apaixonado pela cadelinha Lisbeth, que nem sabe que eu existo; amores de
carnaval! Coisa boa, pena que só duram quatro dias; é o tatu! É o tatu! Quem é,
quem é? É o tatu.
Omisso, um cão rural.
Gastão Ferreira/2018
        

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