480 anos de nobreza
         Quem
diria, e lá se vão 480 anos! Quando fugi de casa, mamãe Cananeia disse; – “Vai,
filha ingrata! As cobras e as mutucas vão te trazer de volta em três
pulinhos.”, a velha errou, e errou feio. Foram tempos difíceis! Eu, moça
donzela e pura, aturando aquele bando de índios peladões, todos uns tarados,
mas graças a Senhora das Neves, escapei incólume das muitas sacanagens e sonhos
eróticos dos selvagens.
         Os
descobridores? Ah, os descobridores! Só pensavam em enriquecer. Uns doidos
varridos; viviam abrindo buracos em todos os lugares à procurar ouro. Não tinha
ouro? Sem problemas, vamos exportar o Pau-brasil, tirar a pele dos jacarés, das
onças, vender as araras e acabar com os animais silvestres, pois gado e
galinha, só em Portugal e talvez em Algarves.
         Como
todos sabem, nasci em Cananeia; já era adolescente quando vim para estas terras
gentis. Na verdade, não tão gentis, pois tive de mudar de pouso rapidinho, e
trocar de nome; os motivos alegados, foram falta de água, mutucas e piratas. Na
época me magoei, mas com o passar do tempo me tornei grata pela mudança, nem me
imagino morando no Icapara! Se bem que a Festa da Tainha a deixou famosa.
         Algo
que ninguém mais comenta, ou esqueceram; meu primeiro nome foi Icapara. Eu
estava naquela fase em que as mocinhas ficam querendo trocar de nome;
Hemengarda quer se chamar Andressa, Maria Madalena quer trocar para Tereza de
Jesus, Maria das Dores quer ser chamada de Messalina. Pois é, e eu, uma filhote
de jacu, podendo ser Piracicaba, Camboriú, escolhi ser Iguape. O maior
escândalo! Onde se ouviu um nome destes? Pois, pois… E Iguape pegou e
ficou. 
         Aventureiros?
Sim, conheci muitos aventureiros. Me apaixonei por alguns, viraram nome de
ruas, os mais fogosos carrego em minha lembrança pelos bairros rurais. Como
esquecer o belo Jairê? A graciosa Subauma e seu grande amor, o violeiro Momuna?
No decorrer dos séculos os aventureiros me saquearam, me sacanearam; chegavam
com uma mão atrás e outra na frente, e mais nada. Uns tiravam rápido a mão de
trás e viravam garotos de programa, festeiros, artistas de ocasião, outros mais
favorecidos pela natureza, afastavam a mão da frente e mostravam o que tinham
para negociar, estes casavam rapidinho com alguma herdeira de plantão e quase
titia, era o que mais acontecia no meu reino.
         Os
escravos? Um horror! Apanhavam feito cachorros, pois naquele tempo se podia
bater numa boa num cachorro, e sem trauma. A vida de escravo não era nada
fácil; dormir amontoado na senzala, comer feijoada todos os dias, frutas a
vontade, pois eram grátis, a cachaça também. Trabalhar feito mula para enricar
o patrão. O ruim era quando uma sinhá velha, feia, desdentada e rabugenta se
encantava pelo negão, ou então quando o amo e senhor, taradão, se apaixonava
pela menina cativa. Paixão de senhor de engenho não durava um mês. Um dia o Bom
Jesus chegou e a sacanagem aparentemente acabou, e toda a putaria foi varrida
para baixo do tapete. O Bonje foi o nosso Salvador, em todos os sentidos.
         Entre
altos e baixos, fortes e fracos, brancos e negrões, joio e trigo, fui
conduzindo o meu barco vida; minhas saudades carrego comigo, e são muitas.
Conheci gente honesta, gente ingrata, gente mesquinha, gente que roubou a coisa
pública. Convivi com pessoas boas, pessoas bem resolvidas, pessoas felizes. Fui
ao fundo do poço várias vezes e sobrevivi. Fui retalhada em dezenas de
municípios, tive meu ouro rapinado, meus filhos expatriados pela falta de um
futuro promissor.
         Hoje
estou aqui, nem velha e nem nova, ainda tenho todos os dentes. Alguns fios de
cabelos brancos; nada que a moderna tecnologia e a vida de Princesa não possa
solucionar. É meu aniversário, e quero agradecer à todos pelo profundo afeto
que nos une; -Eu amo vocês, meus filhos queridos!
Iguape – 03/12/2018 – 480 anos da
Princesa
Gastão Ferreira2018
               

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