Uma onça pintada

         Seu
Onofre foi passarinhar, catar uns sabiás, caçar jacus; na cidade grande tem
gente que pensa que esse costume acabou, ledo engano! No sítio, alguns pássaros
são o prato do dia. Foi nesta caçada que Seu Onofre encontrou um filhote de onça
pintada; a bichinha estava fraca e desnutrida, e mais parecia uma jaguatirica
de tão pequena.
         A
oncinha foi confinada em uma jaula, e nós, os cachorros, costumávamos
visitá-la; – “E aí, jaguaraíva! Vai correr atrás de nós? Presidiária…
Presidiária… Presidiária… Onça que não avonça…”
         Demorou
para entendermos que a oncinha era apenas um filhote, sem mãe, sem pai, sem
amigos. Com o tempo ficou nossa camarada; boa de caça, bote certeiro, não
causava mal à ninguém, e tinha um carinho especial por Seu Onofre, passou a
dormir na soleira da porta.
         Na
vigésima “Festa do Tatu”, uma turista deu de cara com a onça; foi o maior
escândalo, formou um grande barraco, a mulher desmaiou de medo. A infeliz deu
parte de Seu Onofre, e a Polícia Ambiental nos fez uma visita; primeiro quis
saber da tal “Festa do Tatu”, bicho em extinção, caça proibida por lei.
         Foi
difícil explicar que a “Festa do Tatu” não era do tatu, e sim do mandi; – “Que
palhaçada é esta de “Festa do Mandi”? perguntaram.
         Qual
o problema? Não tem “Festa da Tainha”, “Festa do Robalo”, “Festa da Manjuba”? A
nossa é a “Festa do Mandi”, que nós apelidamos de “Festa do Tatu” para não
parecer ridículo.
         Enquanto
os sitiantes explicavam aos policiais sobre a “Festa do Tatu”, Seu Onofre
soltou a oncinha, que estava novamente encarcerada devido ao chilique da
turista, e na cela foi colocado o Gato Capado, que era rajado e com listas.
         Quando
os policiais olharam o felino, perceberam que era um gato doméstico; deram uma
dura em Seu Onofre, mas ele não entregou a amiga, mas acabou sendo preso por
desacato. Ele falou para as autoridades que não tinha nenhuma onça em casa, e
os policiais insistindo; – “Queremos a onça pintada!”, e o velhote foi
extremamente indelicado, pois respondeu; – “Não sei de nenhuma onça, mas se
quiserem uma pintada, eu dou!”, e foi assim que ele foi preso por desacato.
         Seu
Onofre pagou fiança, e foi liberado; voltou para o sitio, está feliz da vida.
Ontem à noite saiu para caçar, a onça pintada foi junto, voltaram com dois
tatus, digo, dois mandis.
Gastão Ferreira/2017    
        

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