Um encontro com o Curupira

         Qualquer
caboclo sabe que para entrar na mata com segurança tem que levar no bolso um
pedaço de fumo de corda; é um presente aos seres que protegem a floresta. O
caiçara Dito Piché nunca acreditou neste costume e pagou o preço por afrontar
Tupã.
         Quando
Tupã, o pai de todos, criou o mundo, tudo era diferente; os rios corriam
livres, nada de represas para aprisioná-los. As árvores morriam de velhice ou
vítimas do Boitatá, a grande cobra de fogo, que adorava uma queimada. A
Mãe-d’água, que habitava os lagos de águas cristalinas e sem poluição, nem
imaginava o que seria contaminação por agrotóxicos e elementos químicos.
         A
mítica Pindorama desapareceu, e com ela os deuses antigos. Os homens trocam de
deuses, e a história comprova que isto é uma prática comum; as grandes
deusas-mães da pré-história sumiram, Amon Rá subiu aos céus em sua barca de
ouro e nunca mais foi invocado. De Zeus e os olímpicos ninguém mais fala. Odin
e seus filhos mudaram o palácio de Asgard para outro mundo, mas Tupã ainda
sobrevive e os filhos da floresta ainda o amam.
         Estava
Dito Piché tirando uns palmitos no meio da mata, quando ouviu um estalo, alguém
quebrara um graveto. Foi espiar e notou pegadas no chão, as pisadas indicavam
que a criatura caminhava para o norte, Dito foi na direção sul. Algo estranho
ocorria, a floresta estava em silêncio, nenhuma ave piava, os bugios não
gritavam, os pernilongos não picavam. Um som de trovão vinha de muito longe.
         Era
peludo, estava nu e tinha os pés para trás; bandos de pássaros cercavam a
criatura, os guaribas e suas crias o reverenciavam. Antas, tatus, pacas,
raposas, guaxinins, prestavam atenção no que ele falava. O ser segurava pela
mão um filhote de Saci, um menino de uma perna só. Piché se apavorou e o seu
medo alcançou o grupo reunido na clareira.
         O
menino Saci, pulando numa perna só, foi ao encontro de Dito Piché; – “Ladrão de
palmito, onde está o fumo de corda para o Curupira?”
         –
“Não sei de nenhum fumo de corda” disse Dito Piché.
         –
“Como você tem a desfaçatez de entrar na mata sem uma oferenda aos nossos
guardiões? Não tem medo de ser picado por uma jaracuçu, atacado por uma onça,
pegar malária?”
         –
“Que conversa para boi dormir! Sei me cuidar muito bem, e não tenho medo de
nada.”
         –
“Ah, que bom! Deixa o Curupira saber disto…” disse o Saci e gritou bem alto;
– “Patrão! O homem não tem medo de nada.”
         Aquele
olhar de fogo atingiu em cheio Dito Piché, uma nuvem de mosquito pólvora o
envolveu, uma onça rugiu ao seu lado, uma cobra armou o bote. Dito correu pela
mata, perdeu o facão, os palmitos, a espingarda e a coragem. Consegui sair da
floresta, bastante lanhado pelos espinhos, é verdade, mas vivo. Não deixou de
roubar palmitos, é seu meio de sobreviver, e o Curupira sabe disto. Agora, toda
a vez que entra na mata, a primeira coisa que faz é oferecer um pedaço de fumo
de corda aos guardiões da floresta.
Gastão Ferreira/2017  
           
          
        

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