Querendo colo
         Eu
e meu primo Baltazar, cão do Pastor Silas, estávamos deitados na soleira do bar
do seu Nícolas, quando o estranho chegou; – “Boa tarde, hoje sou um cidadão
comum, mas já tive meus momentos de glória. Fiquei sabendo que vocês estão passando
por dificuldades, aqui no sitio. Estou com minha máquina fotográfica, e
gostaria de documentar o que ocorre, à fim de entrar com uma ação no Ministério
Público.”
         –
“Que bom que o senhor apareceu”, disse Seu Pedro Calado, “a estradinha de
acesso ao sítio está bem aíva, muito buraco, mato no acostamento, tem até ninho
de cobra.”
         –
“Parabéns! Aceita uma dose de Paletó Vermelho? Ah, não bebe! A Escola Rural foi
fechada, queremos reabri-la.”, falou Seu Tildes.
         –
“Vou fotografar tudo e postar no Facebook, este novo prefeito, que não gosta de
pobre, tem que dar mais atenção à vocês, gente humilde da periferia rural.
         Ninguém
sabia o que significava “periferia”, mas o que ofendeu os fregueses do Seu
Nícolas, foi serem chamados de pobres, assim, na lata e com aquele olhar de
compaixão. Gente do mato se estressa rápido; – “Que mal lhe pergunte, moço, o
senhor conhece alguém que goste de pobre, fora os politiqueiros? Mostre!”,
perguntou zangado, Seu Rafa.
         –
“Calma! Calma! Vocês interpretaram mal as minhas palavras.”, disse o visitante.
         –
“Tá nos chamando de burro? Ignorante? Não basta chamar de pobre! Aqui
trabalhamos, não vivemos de favores, pagamos nossas contas em dia, não
dependemos de políticos para comer…”, se exaltou o velho Raimundo.
         –
“Desculpe, pessoal! É que o prefeito de vocês não está dando a devida atenção a
este bairro, e eu só quero ajudar…”
         –
“Agora estou lembrando da sua fuça. O senhor não era o puxa-saco mór do
ex-prefeito, de infeliz lembrança?”, perguntou Seu Nícolas.
         –
“Não fale assim do meu ídolo! A pessoa mais honesta, mais sensível e gentil que
passou por nossa história recente…”
         –
“Mizerave! Sabe quando foi fechada a escola? Sabe da última vez que jogaram
cascalho na estradinha? A escola foi fechada a três anos por falta de merenda,
e a quinze anos que a estrada não vê um cascalho novo.”
         –
“E daí? Isto não muda em nada a situação…”
         –
“Mas o senhor era assessor do homem, quando ele mandou fechar a escola; na
época, o senhor apareceu por aqui para tirar foto e entrar com ação no
Ministério Público?”, gritou Seu Tildes.
         –
“Por favor, não se exalte! Eu não tenho culpa se o prefeito de vocês abandonou
a zona rural….”
         –
“O senhor não passa de um politiqueiro, o homem já mandou arrumar a estrada que
vai da Ponte do Mathias até Icapara, cascalhar a que vai do Rocio ao Jairê, fez
duas reuniões com o pessoal aqui do sítio, nos tratou muito bem, tomou café com
bolo de fubá nas nossas casas, e o senhor vem fazer fofocas! Que ele não gosta
disso, daquilo… Toma tento, fulano! Que a gente solta os cachorros encima.”,
disse Seu Pedro Calado.
         Foi
só falar em soltar os cachorros que eu e meu primo começamos a rosnar para o
visitante; óbvio que não morderíamos o desgraçado, era só para assustar, mas
ele não sabia, e quase teve um treco, perdeu a valentia, a empáfia, e ficou
mansinho, mansinho; – “Eu só quero colo! Eu só quero um cargo! Esqueceram de
mim… Oh, Meu Bonje! Eu quero morrer.”, saiu correndo, e nunca mais voltou ao
sítio, e parece que não postou a visita no facebook.
Omisso, um cão rural
Gastão Ferreira/2017
      

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