Querendo colo
Eu
e meu primo Baltazar, cão do Pastor Silas, estávamos deitados na soleira do bar
do seu Nícolas, quando o estranho chegou; – “Boa tarde, hoje sou um cidadão
comum, mas já tive meus momentos de glória. Fiquei sabendo que vocês estão passando
por dificuldades, aqui no sitio. Estou com minha máquina fotográfica, e
gostaria de documentar o que ocorre, à fim de entrar com uma ação no Ministério
Público.”
e meu primo Baltazar, cão do Pastor Silas, estávamos deitados na soleira do bar
do seu Nícolas, quando o estranho chegou; – “Boa tarde, hoje sou um cidadão
comum, mas já tive meus momentos de glória. Fiquei sabendo que vocês estão passando
por dificuldades, aqui no sitio. Estou com minha máquina fotográfica, e
gostaria de documentar o que ocorre, à fim de entrar com uma ação no Ministério
Público.”
–
“Que bom que o senhor apareceu”, disse Seu Pedro Calado, “a estradinha de
acesso ao sítio está bem aíva, muito buraco, mato no acostamento, tem até ninho
de cobra.”
“Que bom que o senhor apareceu”, disse Seu Pedro Calado, “a estradinha de
acesso ao sítio está bem aíva, muito buraco, mato no acostamento, tem até ninho
de cobra.”
–
“Parabéns! Aceita uma dose de Paletó Vermelho? Ah, não bebe! A Escola Rural foi
fechada, queremos reabri-la.”, falou Seu Tildes.
“Parabéns! Aceita uma dose de Paletó Vermelho? Ah, não bebe! A Escola Rural foi
fechada, queremos reabri-la.”, falou Seu Tildes.
–
“Vou fotografar tudo e postar no Facebook, este novo prefeito, que não gosta de
pobre, tem que dar mais atenção à vocês, gente humilde da periferia rural.
“Vou fotografar tudo e postar no Facebook, este novo prefeito, que não gosta de
pobre, tem que dar mais atenção à vocês, gente humilde da periferia rural.
Ninguém
sabia o que significava “periferia”, mas o que ofendeu os fregueses do Seu
Nícolas, foi serem chamados de pobres, assim, na lata e com aquele olhar de
compaixão. Gente do mato se estressa rápido; – “Que mal lhe pergunte, moço, o
senhor conhece alguém que goste de pobre, fora os politiqueiros? Mostre!”,
perguntou zangado, Seu Rafa.
sabia o que significava “periferia”, mas o que ofendeu os fregueses do Seu
Nícolas, foi serem chamados de pobres, assim, na lata e com aquele olhar de
compaixão. Gente do mato se estressa rápido; – “Que mal lhe pergunte, moço, o
senhor conhece alguém que goste de pobre, fora os politiqueiros? Mostre!”,
perguntou zangado, Seu Rafa.
–
“Calma! Calma! Vocês interpretaram mal as minhas palavras.”, disse o visitante.
“Calma! Calma! Vocês interpretaram mal as minhas palavras.”, disse o visitante.
–
“Tá nos chamando de burro? Ignorante? Não basta chamar de pobre! Aqui
trabalhamos, não vivemos de favores, pagamos nossas contas em dia, não
dependemos de políticos para comer…”, se exaltou o velho Raimundo.
“Tá nos chamando de burro? Ignorante? Não basta chamar de pobre! Aqui
trabalhamos, não vivemos de favores, pagamos nossas contas em dia, não
dependemos de políticos para comer…”, se exaltou o velho Raimundo.
–
“Desculpe, pessoal! É que o prefeito de vocês não está dando a devida atenção a
este bairro, e eu só quero ajudar…”
“Desculpe, pessoal! É que o prefeito de vocês não está dando a devida atenção a
este bairro, e eu só quero ajudar…”
–
“Agora estou lembrando da sua fuça. O senhor não era o puxa-saco mór do
ex-prefeito, de infeliz lembrança?”, perguntou Seu Nícolas.
“Agora estou lembrando da sua fuça. O senhor não era o puxa-saco mór do
ex-prefeito, de infeliz lembrança?”, perguntou Seu Nícolas.
–
“Não fale assim do meu ídolo! A pessoa mais honesta, mais sensível e gentil que
passou por nossa história recente…”
“Não fale assim do meu ídolo! A pessoa mais honesta, mais sensível e gentil que
passou por nossa história recente…”
–
“Mizerave! Sabe quando foi fechada a escola? Sabe da última vez que jogaram
cascalho na estradinha? A escola foi fechada a três anos por falta de merenda,
e a quinze anos que a estrada não vê um cascalho novo.”
“Mizerave! Sabe quando foi fechada a escola? Sabe da última vez que jogaram
cascalho na estradinha? A escola foi fechada a três anos por falta de merenda,
e a quinze anos que a estrada não vê um cascalho novo.”
–
“E daí? Isto não muda em nada a situação…”
“E daí? Isto não muda em nada a situação…”
–
“Mas o senhor era assessor do homem, quando ele mandou fechar a escola; na
época, o senhor apareceu por aqui para tirar foto e entrar com ação no
Ministério Público?”, gritou Seu Tildes.
“Mas o senhor era assessor do homem, quando ele mandou fechar a escola; na
época, o senhor apareceu por aqui para tirar foto e entrar com ação no
Ministério Público?”, gritou Seu Tildes.
–
“Por favor, não se exalte! Eu não tenho culpa se o prefeito de vocês abandonou
a zona rural….”
“Por favor, não se exalte! Eu não tenho culpa se o prefeito de vocês abandonou
a zona rural….”
–
“O senhor não passa de um politiqueiro, o homem já mandou arrumar a estrada que
vai da Ponte do Mathias até Icapara, cascalhar a que vai do Rocio ao Jairê, fez
duas reuniões com o pessoal aqui do sítio, nos tratou muito bem, tomou café com
bolo de fubá nas nossas casas, e o senhor vem fazer fofocas! Que ele não gosta
disso, daquilo… Toma tento, fulano! Que a gente solta os cachorros encima.”,
disse Seu Pedro Calado.
“O senhor não passa de um politiqueiro, o homem já mandou arrumar a estrada que
vai da Ponte do Mathias até Icapara, cascalhar a que vai do Rocio ao Jairê, fez
duas reuniões com o pessoal aqui do sítio, nos tratou muito bem, tomou café com
bolo de fubá nas nossas casas, e o senhor vem fazer fofocas! Que ele não gosta
disso, daquilo… Toma tento, fulano! Que a gente solta os cachorros encima.”,
disse Seu Pedro Calado.
Foi
só falar em soltar os cachorros que eu e meu primo começamos a rosnar para o
visitante; óbvio que não morderíamos o desgraçado, era só para assustar, mas
ele não sabia, e quase teve um treco, perdeu a valentia, a empáfia, e ficou
mansinho, mansinho; – “Eu só quero colo! Eu só quero um cargo! Esqueceram de
mim… Oh, Meu Bonje! Eu quero morrer.”, saiu correndo, e nunca mais voltou ao
sítio, e parece que não postou a visita no facebook.
só falar em soltar os cachorros que eu e meu primo começamos a rosnar para o
visitante; óbvio que não morderíamos o desgraçado, era só para assustar, mas
ele não sabia, e quase teve um treco, perdeu a valentia, a empáfia, e ficou
mansinho, mansinho; – “Eu só quero colo! Eu só quero um cargo! Esqueceram de
mim… Oh, Meu Bonje! Eu quero morrer.”, saiu correndo, e nunca mais voltou ao
sítio, e parece que não postou a visita no facebook.
Omisso, um cão rural
Gastão Ferreira/2017
Gastão Ferreira começou a publicar seus textos aos 13 anos. Reconhecido por suas crônicas e poesias premiadas, suas peças de teatro alcançaram grandes públicos. Seus textos e obras estão disponíveis online, reunidos neste blog para que todos possam desfrutar de sua vasta e premiada produção.