Os Sacis da Barra do Ribeira

(Um causo estranho)

                  Eclipse lunar sempre mexeu com os
guardiões da floresta; os índios ficavam doidos durante um plenilúnio, pois
pensavam que o Jaguar de Guaraci o sol, estava comendo Jaci a lua. Eles
gritavam, batiam nas árvores, faziam o maior escarcéu; graças à Tupã, sempre
conseguiam afugentar o Jaguar. Depois de espantar a negra fera, faziam a maior
festança, pois mais uma vez a lua estava à salvo.
Na
atualidade, com a falta de Jaguares, nas noites de eclipse quem faz a festa é o
saco de lixo; pelo facebook ficamos sabendo que no Bairro Barra do Ribeira, os
sacos de lixo fogem da frente da casa de quem os gerou. Vão longe os danadinhos!
Alguns tentam se afogar e se jogam no rio Suamirim, outros vão nadar no mar, e
alguns simplesmente resolvem fazer turismo na escuridão da noite.
         Por
muito tempo se pensou que o aparecimento de sacos de lixo na porta dos outros
fosse uma brincadeira de mau gosto, um descaso com um vizinho, uma pequena
vingança, e não uma falta de educação, tipo; minha casa limpa e a sua casa
suja! Fique com o meu lixo e se dane.
         Na
Barra do Ribeira, durante o último eclipse, as câmeras de monitoramento
conseguiram desvendar o mistério milenar; não era os educados moradores que
jogavam o lixo para longe de seus domicílios. Não eram as pessoas civilizadas
que sujavam as propriedades alheias.
         Noite
escura, postes com falta de reposição de luminárias, difícil de ver à um palmo
à frente do próprio nariz; o saco de lixo se elevou no ar. Flutuou até a
esquina, deu um tempo, esperou pelos outros sacos de lixo, e foram em baixa
revoada pousar frente à diferentes casas… A câmera, só filmando.
         Dona
Giselda não sabia explicar como o seu lixo foi parar frente ao portão de Dona
Mafalda; Dona Mafalda achou um desaforo a atitude da vizinha distante. Como
ficou sabendo de quem era o lixo? Um bilhete de entrega do correio no meio dos
detritos dava nome, sobrenome e endereço de quem pertencia por direito, o
presente deixado para Dona Mafalda. Dona Giselda negou de pés juntos; era
educada, cidadã exemplar, boa mãe, boa filha, boa madrinha e jamais faria uma
coisa tão desqualificada. Quem será que aprontou com Dona Mafalda?
         As
câmeras de monitoramento revelaram o segredo, o mistério mais bem guardado dos
últimos tempos; um bando de Sacis! O Saci é preto, tem só uma perna, anda com a
ajuda de um redemoinho. Na escuridão é difícil de se ver um Saci, mas as
câmeras conseguiram.
         Vieram
dos lados da Juréia; centenas de pés-de-vento invadiram a Barra do Ribeira após
a meia-noite. Afora os meninos do bem, aqueles que ficam espiando as estrelas e
falando de experiências além da imaginação na maior larica, os habitantes do
bairro dormiam, por isso as invasões nunca foram notadas, mas agora com as
modernas câmeras nada fica oculto.
         Foi
assim que Dona Giselda foi até a casa de Dona Mafalda, foi buscar o que era
seu. Levou um bombom como presente. A paz voltou a reinar na Barra do Ribeira,
na saída Dona Giselda jogou o envoltório do bombom bem na frente do portão de
dona Kelin, que não faz parte desta história.
Gastão Ferreira/2017
(Observação; – Em Iguape os Sacis também
aprontam; fiquem atentos)          

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