Os pedintes

         O
barulho acordou Dona Cotinha, eram três horas da madrugada. Espiou pela janela
e avistou alguns vultos no alpendre da quitanda do Seu Toinho; – “Meu Bonje!
Pelas vestes parecem extraterrestres. Não consigo entender o que falam…”
         Seu
Toinho levou o maior susto, oito desconhecidos roncando, deitados debaixo do
toldo do mercadinho. Abriu o estabelecimento e foi fazer café. O aroma acordou
os dorminhocos; – “Puedes ceder-me um cafê?”, “Jo quiero uno pão com mantega”,
“Una pinga, por favor!”
         Os
moradores foram chegando; – “Quem são esta gente? De onde vieram? Que querem?”
Pedro Trambolho contou que avistou um micro-ônibus saindo do sitio em alta
velocidade, e que aquelas pessoas eram pedintes abandonados.
        
“Tadinhos! Como podem fazer isto com seres humanos, vou em casa preparar um
lanche para eles.”, disse Dona Bebel, a Orca Assassina.
        
“Nem pensar, Dona Bebel! Tudo o que eles querem é alimentação grátis. Por que
não aproveita, e leva todos eles para a sua casa?”, falou Seu Zico Tainha.
         Madame
Marcia Cristina de Oliveira Barros tomou a frente, e foi muito clara; – “Pelo
sotaque nem brasileiro são, creio que nem devemos alimentá-los, o melhor é
arrumar um transporte e manda-los para a cidade. O pessoal da cidade adora
pedintes, e estes estrangeiros farão sucesso por lá.”
         A
dificuldade maior foi colocá-los dentro da condução, não queriam partir, mas
quando Seu Zico Tainha falou que podiam ficar e trabalhar na lavoura, todos
pularam para dentro do veículo e suplicaram que os levassem para a cidade
grande.
         Nosso
pessoal ficou esperto, colocaram uma bela placa na entrada do sitio; “Bem
vindos caminhantes; temos trabalho para todos.” Nunca mais apareceu ninguém por
aqui querendo viver à custa do suor alheio.
         Sou
apenas um cachorro, meu serviço é defender a casa do meu dono, espantar
raposas, assustar gavião, correr atrás de onça. De onça? Brincadeira! Morro de
medo de onças. Na verdade o que quero dizer, é que mereço o osso de cada dia,
pois eu trabalho.
Omisso, um cão rural
Gastão Ferreira/2017
               

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