O vilipêndio

            Temos
uma capelinha aqui no sitio, quatro templos evangélicos, um centro espírita, um
terreiro de umbanda, dois de candomblé, uma casa de vodu; nosso pessoal é muito
religioso e temente a Deus. Tem vezes que eu me pergunto, com tanta igreja, por
que ainda temos gente mentirosa, egoísta, sacana, e propensa à enganar aos
outros? Não sei a resposta, sou apenas um cão rural.
            Dona
Cleópatra, a egípcia, e Dona Carmen, a espanhola, eram católicas fervorosas,
mas brigavam feito gato e cachorro, sem ofensa para a minha raça canina, pois
conheço muito bem a minha laia. As duas foram amigas inseparáveis, beleza de se
ver! Agora são inimigas mortais. O cão Ferdinando, o pitibul que cuida da
entrada da “casa de vodu” de pai Zezé Missanga, disse que viu Dona Cléu pedindo
um trabalho de magia negra contra Dona Carminha; tipo assim quebrar ama perna,
furar um olho, ter dores no corpo.
            O
padre vem raras vezes por ano aqui no sitio, mas os fiéis comparecem de duas à
três vezes por semana na capelinha; Dona Carmen cantava e encantava os devotos
com hinos sacros, e Dona Cleópatra lia e comentava o evangelho. Ambas foram
apelidadas de beatas, papa hóstia e carolas. O vilipêndio acorreu por ciúmes, o
padre elogiou a bela voz de Dona Carminha, e Dona Cléu se achou desprestigiada
frente a irmandade.
            A
primeira fase da briga começou com fofocas; quando a noviça, irmã Zenaide do
Espírito Santo, chegou para fazer um estágio na zona rural, a egípcia e a
espanhola inventaram tantas mentiras, uma da outra, que a freirinha horrorizada
desistiu do noviciado, abandonou o convento, e se entregou ao mundo.
            A
segunda etapa do entrevero, também foi a última; o arranca-rabo foi tão feio
que quebraram os santos, destruíram o púlpito, e acabaram com o estoque de água
benta. Juntou gente para observar o barraco; os líderes dos outros credos
religiosos entraram na peleja, separaram as duas, que estavam no lance de puxar
cabelos, ofender a mãe, e expor intimidades dos tempos em que eram amigas
inseparáveis.
            Foi
depois desta briga que Dona Cleópatra procurou pai Zezé Missanga, e Dona
Carminha pediu ajuda a mãe-de-santo Elizandra de Almeida Quadros de Freitas
Nobre, mãe Zizi de Xangô. A baixaria passou para outra esfera, e muitas
galinhas pretas foram sacrificadas; parece que os feitiços funcionaram.
            Cabelos
compridos, vestidos comportados, bíblia embaixo do braço, agora irmãs, Dona
Cléu e Dona Carmen estão frequentando o novo templo “A Rosa é a Flor”. Seu
Alcides alugou o antigo salão de baile para a recém inaugurada comunidade.
Fomos assistir ao culto, parece que o ser humano não toma tento; Dona Cleópatra
leu uma bela passagem do evangelho, aquela que conta a história do Bom
Samaritano, e muitas “aleluia” e “aleluia” foram ouvidas. Dona Carminha cantou
emocionada, o Pastor Saulo, elogiou a sua maravilhosa voz, um dom divino… A
egípcia fechou o cenho, fez cara de nojo, franziu o nariz… O vilipêndio vai
recomeçar, agora sobre nova direção; ah, os humanos! Quem entende os humanos?
Eu sou um cão, e nada mais.
Omisso, um cão rural.
Gastão Ferreira/2017    
              

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