O velório de Anita
         Anita
era jovem, Anita era poderosa, Anita era alegre, amiga, gentil, prestativa…
Todos amavam Anita, e assim, sem mais nem menos ela foi encontrada morta em seu
quarto. Não, nenhum sinal de violência! Mesmo Ritinha comentando que o último
namorado de Anita era um traste, e que quando a amiga descobriu que ele roubava
bicicletas, deu um basta; nunca se sabe! Ninguém acreditou que o rapaz cometera
tal atrocidade.
         Angélica
disse saber o motivo da morte súbita; Anita não compartilhou uma postagem no
facebook. “Como, assim?”, aquela em que o remetente, quase um desconhecido,
pede que repasse para quinze pessoas um texto bocó… Meu Bonje! Anita se negou
a repassar, e pagou o preço da descrença.
         Marcos,
amigo de infância de Anita, concordou com Angélica; ele jamais se esquecia de
compartilhar tais mensagens, e por vezes até acrescentava mais alguns nomes na
lista, por pura precaução.
         Sirlei,
a intelectual do grupo, discordou; – “Bobagem! Perda de tempo, isso sim. Um sem
noção escreve um monte de besteira, roga uma praga, e todos acreditam. É assim
que os vírus invadem um computador…
        
“Não concordo!”, disse Roberto, “como alguém que quer infectar um computador
pede no final do texto; e se achar que eu mereço, envie também para mim…”
        
“Penso que Roberto está certo”, disse Anísia, outra amiga de Anita, e que
sonhava em ser psicóloga, “são pessoas carentes, solitárias, pedindo colo, eu
sempre respondo, não quero criar inimizades…”
        
“Criar inimizades? Você nem conhece o remetente, é apenas um amigo virtual, nem
sabe se a foto do perfil é verdadeira… Você, hem Anísia! Tão esperta…”
        
“É que praga, pega!”, confessou a Neuza, “eu não compartilhei um texto, e quase
fui atropelada…”
        
“Tadinha!”
        
“Tadinha! Coitada de Anita que morreu tão jovem, isso sim. Repararam que os
pais da Anita estão calmos? Nem parece que a filha morreu…”
        
“Não inventem histórias! Seu Pedro e Dona Cida, amavam profundamente a filha,
satisfaziam todos os seus gostos, lembram? Ela foi a única entre nós que
conheceu a Disneylândia…”
        
“É verdade! Eles tinham cuidados especiais com a Anita, nossa amiga era tratada
como um bibelô; vida feliz de princesa, gente boa, e os bons sempre vão
primeiro…”
        
“Quietos! Dona Cida vem em nossa direção”, disse Neuza.
        
“Olá, crianças! Anita, a nossa pequena luz, deixou um bilhete para vocês, está
aqui… Leiam!” falou Dona Cida se afastando.
         “Amigos,
se estão lendo este bilhete, então já parti; eu nunca contei para vocês, mas
nasci com uma deficiência cardíaca, e a morte sempre esteve presente desde o
dia em que nasci. Jamais contei porque não queria preocupar vocês, já bastava
papai e mamãe me cercarem de tantos cuidados… Estas linhas são para agradecer
as horas felizes, vocês não me verão envelhecer, não conhecerão os meus filhos,
ou o grande amor que eu poderia vivenciar, mas torçam para que eu encontre
saúde e paz; eu amo todos vocês, até breve, adeus.”
         Todos
se abraçaram, todos choraram… Até breve, Anita.
Gastão Ferreira/2017
        

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