O Saci do Campo Américo Mâncio

         Contam
as lendas urbanas que há mais de meio século, no campo de futebol Américo
Mâncio, morava um saci. Naquela época o local confinava com uma várzea, hoje
Bairro Guaricana, onde a molecada costumava brincar.
         Maneco
Lima jamais esqueceu daquela tarde; enquanto alguns meninos soltavam pipas, outros
permaneciam entretidos em várias brincadeiras, foi quando começou à soprar um
ventinho frio, um aviso de mudança de tempo, e sinal de aguaceiro, e o bicho
pegou feio.
         Ditinho
Três levou um tapa na cara, Pedro Parente uma rasteira, Toninho Zoiudo um
pontapé na canela; quem bateu nos guris? Nenhum adulto à vista! Apenas um roda
moinho no meio do campo. Coisa estranha!
         A
molecada ficou apavorada, mas curiosa! Seria o famoso Boitatá? Uma Mula Sem Cabeça?
O Negrinho do Rio? Um Curupira da mata próxima? O fantasma da Moça da Porcina?
Se juntaram num canto do campo e aguardaram ansiosos os acontecimentos.
         O
redemoinho corria no gramado, por instantes parecia desaparecer, mas num
segundo surgia em outro local; no ar um som de risos, assobios, gritos. Os
garotos tremendo de medo, alguns chamavam pelo Bonje, outros pelas mães; era o
diabo em pessoa quem estava aprontando com eles.
         O
pavor era tanto que estavam paralisados; o roda moinho estava bem na frente
deles, um vento quente saia de dentro da coisa, algumas folhas, gravetos, penas
de pássaros, e então veio o aviso numa voz cavernosa; – “Desapareçam antes que
eu acabe com todos vocês! Nunca mais brinquem neste campinho, ele é a minha
casa; eu sou um Saci. Caiam fora, já.”
         Foi
um Deus nos acuda! Os meninos saíram em disparada, e deixaram os brinquedos
para trás, nunca mais brincaram no campinho. Foi por este motivo que o campo
foi murado.
         Iguape
guarda muitas histórias, causos que poucos lembram, lendas urbanas que estão
desaparecendo; quem passa pela Avenida Ademar de Barros e repara no imenso muro
que cerca o campo de futebol Américo Mâncio, nem imagina que ali morou um Saci,
e dos brabos.
         Um
brinde à memória dos sobreviventes; dos poucos que ainda restam para contar o
que presenciaram naquela tarde. Quantos anos vive um Saci? Nem imagino! Será
que aquele Saci ainda mora no campo de futebol? Não sei. Ontem à tardinha
avistei um redemoinho, um pequeno pé de vento, coisa rara nos dias atuais;
talvez um filhote de Saci espiando a vida passar.
Gastão Ferreira/2017      

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