O rolê

         Sodoma
e Gomorra ficariam envergonhadas com o que aconteceu no último rolê. Centenas
de jovens invadiram a velha praça; muita bebida, sexo e música, juntos e
misturados a elite e a ralé, o rico e o pobre curtindo a liberdade de viver; os
romanos diriam que era uma bacanal.
         Nos
tempos bíblicos, o sonho inconfessável de qualquer garoto normal, era passar um
fim de semana em Sodoma. As cidades da época não ofereciam muitas opções
noturnas de lazer, e papai e mamãe estavam sempre ocupados fabricando novos
maninhos, ou enchendo a cara nas tavernas da vida.
         Até
aonde se sabe ninguém se feriu, ninguém foi assaltado, nenhum estrupo
mencionado. Depois da meia-noite, quem passou pela praça se escandalizou e
compartilhou o que viu no facebook; pobre Princesa abandonada!
         Comentaram
que foi um desrespeito à algumas senhoras da última idade que moram no entorno
da praça; não que elas tenham presenciado os acontecimentos noturnos, pois suas
casas têm altos muros, parece que as senhoras não reclamaram do som altíssimo
do último show no Centro de Eventos, e nem dos acampamentos na praça em Festas
de Agosto, onde ocorre as mesmas coisas do rolê e com as bênçãos da Santa
Madre.
         Quanta
hipocrisia! Esqueceram da vez em que proibiram um rolê, e os jovens revoltados
quebraram bancos, vidraças, e zoaram nas ruas até a madrugada? Os tempos são
outros, e os adolescentes estão mostrando, ao distinto público, o que
aprenderam em casa; a fina educação que receberam dos pais, da televisão, e da
vida.
        
trinta anos tais rolês não existiam, mas a Fonte do Senhor já era famosa pelas
bacanais e uso de droga entre os jovens. Os usuários com grana faziam passeios
para bairros rurais, acampavam perto de cachoeiras para curtirem o cheiro de
mato queimado. Os mais pobres se drogavam à beira-mar; ninguém viu, não tinha
facebook, e a polícia vigiava e atuava.  
         Não
estou defendendo nem condenando os rolês, estou apenas apontando à validade da
lei de Lavoisier; “na natureza nada se perde, nada se cria; tudo se
transforma.” A juventude necessita extravasar a sobrecarga de energia vital,
sempre foi assim, todos os clubes fecharam suas portas, viraram igrejas, lojas,
mercados. Os jovens se dividem em tribos, e as tribos pedem espaço para seus
estranhos rituais. Os pais têm medo de educar e parar no Conselho Tutelar, os
professores apanham se chamarem à atenção, os mais velhos são desacatados em
público, e a vida continua à pedir uma solução para algo aparentemente sem
solução.
         Os
jovens são imaturos, e se negam à aprender que a liberdade pessoal termina na
cerca da liberdade do vizinho, que tudo é válido, mas nem tudo é permitido só
porque é válido. Existem limites, e o que dita os limites é o bom senso, sem
esquecer que a liberdade tem um preço chamado eterna vigilância.
         Sodoma
e Gomorra passaram, hoje bacanal é um encontro de gente bacana, as novidades
vêm e vão, sempre haverá um sábado e um domingo. O bebê será uma criança feliz,
a criança um moleque, o moleque um adolescente, o adolescente um homem, e homem
será pai, avô, bisavô. A vida é um eterno rolê; sejam bem vindos, sem esquecer
de que cada um no seu quadrado, e sem traumas. Um dia o barco-vida ancora, e
todos voltam para casa; alô! Atenção…
Gastão Ferreira/2017 
          
        

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