O dia em que a Princesa chorou

         Josephus,
secretário particular, amigo e confidente da Princesa do Litoral, tentava
explicar à jovem Odalisca o estranho comportamento de Sua Alteza; – “Lisca, não
podemos esquecer que a Princesa está com quase quinhentos anos, e já passou por
poucas e boas em sua longa vida.”
        
“Mas Seu Josephus, eu não fiz nada! Apenas ofereci um caldinho de manjuba, e….”
        
“Você teve a coragem de oferecer caldinho de manjuba, à Sua Majestade? E não
foi despedida? Meu Bonje!”
        
“Mas todos no reino adoram caldinho de manjuba! Eu só quis agradar, eu não fiz
por mal. Por acaso a Princesa é alérgica a manjuba?”
        
“Ah, Lisca! Você apesar de ser tão prestativa, não sabe de nada, guria.”
        
“Não consigo entender! Caprichei no caldinho, fiz com tanto carinho, receita de
minha tataravó… Apresentei a cumbuca, a Princesa sentiu o aroma, encheu os
olhos d’água e saiu correndo, e se trancou nos aposentos Reais aos prantos…”
        
“Você não entende! Você não sabe de nada! Você se acha esperta, mas é bem
burrinha…”
        
“Por favor, Seu Josephus! Nada de ofensas. O senhor está morrendo de ciúmes de
minha amizade com a Princesa, mas não precisa me ofender…”
        
“Ninguém está tentando te ofender, sua bisca! Centenas de serviçais passaram
pela vida da Princesa, e você é só mais uma, então pare de se achar o máximo, e
seja mais humilde…”
        
“O senhor sabe que pela Princesa eu até corto os meus longos e sedosos cabelos…”
        
“Não precisa chegar à tanto, e fique ciente de que Sua Majestade não é alérgica
a manjuba…”
         – “Então, por que ela chorou?”                                                 
        
“É que caldinho de manjuba lembra o grande amor da vida de Sua Alteza…”
        
“O quê? A Princesa já se apaixonou? Não acredito!”
        
“Sim! É um dos segredos mais bem guardados do reino; ela era louca por um jovem
pescador…”
        
“Jovem pescador? Aí tem…”
        
“O primeiro a pescar manjuba nas águas do Rio Ribeira…”
        
“A Princesa do Litoral apaixonada por um plebeu, quem diria!”
        
“Paixão de adolescente, foi logo após a fuga de Cananéia para o Icapara, tempos
difíceis, ela chegou a passar fome. Período da piracema da manjuba, era só o
que tinham para comer; manjuba na folha de bananeira, manjuba na telha, manjuba
na brasa, casadinho de manjuba, solteirinho de manjuba, sashimi de manjuba,
manjuba, manjuba, manjuba…”
        
“Caramba! E ela não enjoou de tanta manjuba?”
        
“Aí é que está! Enjoou, sim. E parou de se alimentar…”
        
“Nossa! Pobre Princesa…”
        
“Foi então que o jovem pescador inventou a suprema delícia, o prato dos deuses,
o inesquecível caldinho de manjuba, e foi o que salvou a Princesa…”
        
“Não entendi! Então ela adora caldinho de manjuba? E por que chorou quando lhe
ofereci o sublime caldinho?”
        
“Por que lembrou de seu grande e impossível amor…”
        
“Amor impossível? A Princesa não casou com o pescador?”
        
“Nunquinha! Mamãe Cananéia descobriu o namoro, e conseguiu separar os
pombinhos…”
        
“Chocante! Quem diria, a Princesa apaixonada por um humilde pescador…”
        
“Nem pense em tirar partido deste segredo…”
        
“Eu? Euzinha! Jamais.”  
        
“Quem não te conhece, que te compre, Odalisca! Fica o aviso, se tentar chantagear
a Princesa, você volta para a Ilha de mala e cuia, e você sabe muito bem que na
Ilha não tem mais vez.”
        
“Quanta maldade! Eu só quero ser feliz. Seu Josephus, o que aconteceu com o
pescador de manjubas?”
        
“Ah, esta é outra história…”
        
“Conta! Conta!”
        
“Quem sabe um dia, eu conte… Vamos aguardar!”
Gastão Ferreira/2017

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