Nos confins
A
cidade passa por serias dificuldades, há uma década que as coisas só pioram,
mas pouquíssimas pessoas reclamavam, pois estavam juntas e misturadas comendo
no mesmo cocho e sendo sugadas pelos mesmos bernes. O povo pediu mudanças, e as
mudanças chegaram.
cidade passa por serias dificuldades, há uma década que as coisas só pioram,
mas pouquíssimas pessoas reclamavam, pois estavam juntas e misturadas comendo
no mesmo cocho e sendo sugadas pelos mesmos bernes. O povo pediu mudanças, e as
mudanças chegaram.
Sem
verba, sem dinheiro, sem grana; o novo rei cortou mordomias e alguns cargos
comissionados. Foi um Deus nos acuda! Revolta generalizada, e cada um puxando a
manjuba para a sua própria brasa. Até um drone de um turista escandalizou quem
adora um barraco para chamar de seu.
verba, sem dinheiro, sem grana; o novo rei cortou mordomias e alguns cargos
comissionados. Foi um Deus nos acuda! Revolta generalizada, e cada um puxando a
manjuba para a sua própria brasa. Até um drone de um turista escandalizou quem
adora um barraco para chamar de seu.
Estava
assim um bate-boca generalizado, quando em uma novela, um personagem fictício
conseguiu realizar o impossível; juntar os mal amados, os sem boquinhas, com os
grudados e misturados, num mesmo grupo; os defensores da Princesa, os moradores
dos confins do Vale.
assim um bate-boca generalizado, quando em uma novela, um personagem fictício
conseguiu realizar o impossível; juntar os mal amados, os sem boquinhas, com os
grudados e misturados, num mesmo grupo; os defensores da Princesa, os moradores
dos confins do Vale.
Madame
Beatriz publicou em sua página na internet; – “Sim! Moro nos confins, e sou
feliz. Aqui a única bala perdida que existe é a que cai do bolso de um
menininho ao pedalar a sua bicicleta.” A madame não sai da sua mansão, ela não
sabe dos assaltos a residências, do tráfico de droga, das mulheres bêbadas
gritando palavrões, do achaque diários dos jovens pedintes, e desconhece as
dezenas de problemas que um cidadão comum enfrenta no decorrer de um único dia.
Beatriz publicou em sua página na internet; – “Sim! Moro nos confins, e sou
feliz. Aqui a única bala perdida que existe é a que cai do bolso de um
menininho ao pedalar a sua bicicleta.” A madame não sai da sua mansão, ela não
sabe dos assaltos a residências, do tráfico de droga, das mulheres bêbadas
gritando palavrões, do achaque diários dos jovens pedintes, e desconhece as
dezenas de problemas que um cidadão comum enfrenta no decorrer de um único dia.
Tenho
o maior orgulho de morar nos confins; não ligo a mínima se o menininho perde as
suas balas, azar dele que é descuidado. Me divirto com o pessoal que adora
vestir carapuças alheias, gente que tem que arrumar uma razão para estar de mal
com a vida. O Vale do Ribeira é um lugar de gente pobre, pobre não significa
carente e nem gente que passa fome, somos pobres de verbas federais e
estaduais, e nada mais. Confins é uma divisa territorial, o nosso mundo acaba à
beira-mar, o fim do mundo é onde moramos, a vida humana acaba na Praia do
Leste, depois, gente é só na África.
o maior orgulho de morar nos confins; não ligo a mínima se o menininho perde as
suas balas, azar dele que é descuidado. Me divirto com o pessoal que adora
vestir carapuças alheias, gente que tem que arrumar uma razão para estar de mal
com a vida. O Vale do Ribeira é um lugar de gente pobre, pobre não significa
carente e nem gente que passa fome, somos pobres de verbas federais e
estaduais, e nada mais. Confins é uma divisa territorial, o nosso mundo acaba à
beira-mar, o fim do mundo é onde moramos, a vida humana acaba na Praia do
Leste, depois, gente é só na África.
Mário
Quintana era quem estava certo, ao escrever; – “Quando eu era um passarinho,
morava numa gaiola, e pensava que era um ninho”. Saiam da gaiola, olhem à sua
volta; estamos no paraíso, não podemos esquecer que todo o bom paraíso tem que
ter uma serpente para acabar com a mesmice, o resto é o resto, e nada mais; bem
vindos aos confins.
Quintana era quem estava certo, ao escrever; – “Quando eu era um passarinho,
morava numa gaiola, e pensava que era um ninho”. Saiam da gaiola, olhem à sua
volta; estamos no paraíso, não podemos esquecer que todo o bom paraíso tem que
ter uma serpente para acabar com a mesmice, o resto é o resto, e nada mais; bem
vindos aos confins.
Gastão Ferreira/2017
Gastão Ferreira começou a publicar seus textos aos 13 anos. Reconhecido por suas crônicas e poesias premiadas, suas peças de teatro alcançaram grandes públicos. Seus textos e obras estão disponíveis online, reunidos neste blog para que todos possam desfrutar de sua vasta e premiada produção.