Namorando

         Acordei
feliz; espantei as galinhas, corri no quintal, fui até a margem do rio. Minha
felicidade tem um nome; Méri Madá, a cadelinha mais linda que existe. Conheci a
cachorrinha no “carnaval com Jesus”, um evento para quem não curte as estripulias
de Momo e gosta de sossego.
         Irmã
Carmelita, prima do Pastor Silas, é a dona da pousada “Jesus, Maria e José”, um
local para retiro espiritual que recebe jovens recém casados para a lua de mel,
um pequeno paraíso em meio as sem-vergonhices do mundo.
         O
cão Barrabás, meu primo, é muito amigo de Pilatos, o cachorro de Irmã
Carmelita; foi Barrabás que apesar de crente é bastante fofoqueiro, quem me
contou sobre o “ninho de Jesus”, apelido carinhoso do hotel de Irmã Carmelita.
         Carmelita
na juventude era o que se chama de “menina da pá virada”, “Maria gasolina”,
“juntos e misturados”, sua vida se resumia em procurar turistas para desfrutar
os prazeres de Afrodite, que não sei quem é. A vida de Carmelita era só
diversão, e foi assim até o dia em que se ofendeu com um comentário maldoso;
velha podre!
         Com
a “velha podre” veio a depressão; – “Ninguém me quer! Ninguém me ama!”, o
Pastor Silas foi chamado e depois de muita conversa, ofensas, gritos de
protestos, risos e prantos, ela descobriu que ainda existia um ser que a amava,
e ela se entregou à Jesus, e deixou o mundo pecaminoso para sempre.
         Carmelita
com a ajuda dos amigos do mundo, construiu a pousada “Jesus, Maria e José” para
aqueles que não são mais do mundo, e se deu muito bem, pois quem não gostaria de
provar da comidinha da vovó Ana? Poucos sabiam que Ana, mãe de Maria e avó de
Jesus, era uma excelente cozinheira, e deixou um livro de receitas.
         “O
carnaval com Jesus” estava bastante animado; todos vestindo roupas típicas da
época, muitos aplausos para as irmãs Gina e Jana, fantasiadas de Salomé e Maria
Madalena ainda não arrependida. Apenas vinho para beber, e muitos hinos e
cânticos para alegrar o ambiente. Pastor Silas e Pastor Zico, de Anás e Caifás,
conversavam com a Rainha de Sabá, nossa Dona Carmelita relembrando os velhos
tempos mundanos. Foi nesse momento que quase estraguei a festa.
         Cachorro
novo, sem muita experiência nas coisas do mundo, mal notei a bela, graciosa,
tetéia, divina Méri Madá, e fui dar uma cheiradinha no rabo dela; o maior
escândalo! Arreda Satanás! Amarra ele Jesus! Crucifica-o, crucifica-o…. Saí
em disparada e com dez cachorros atrás de mim.
         Nunca
fui tão ofendido; cão de crente sabe ser ofensivo. Fui chamado de todos os
palavrões que conheço e de outros que nem sei o significado. Fui salvo por Méri
Madá; ela chegou esbaforida e botou ordem no pedaço; – “Vocês não estão vendo
que ele é um cão do mundo, um descrente? Ele não é um inimigo, mesmo que assim
fosse, lembrem-se; devemos amar os nossos inimigos! Voltem para o festim, o
frango assado está sendo servido, e sempre sobram alguns ossos para nós. Eu
falo com este cão imundo, digo, do mundo.”
         Mal
a cachorrada se afastou e Méri Madá começou a me cheirar, me lamber, ganir
baixinho, e a murmurar nas minhas orelhas; – “Meu diabinho! Sou toda tua.”
Escapei feito um covarde, um covarde apaixonado. Semana que vem eu volto, meu
medo já passou, sou apenas um cão adolescente e sem experiência, Dona Carmelita
pode ser crente, mas a sua cadelinha Méri Madá, não é.
Omisso, um cão rural
Gastão Ferreira/2017  
           

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