Myriam Navalha

         Seu
Toninho foi quem contou a novidade; o Pastor João de Marcos fará uma palestra
no sitio. O homem é dos bons; defensor dos pobres e oprimidos, da família e da
propriedade. O Pastor Silas ficou um tanto enciumado por dividir o pequeno
rebanho com um estranho; vá que gostem, e adeus dízimo!
         Eu,
e meu primo o cão Barrabas, ficamos bem próximo ao palestrante; terno escuro,
camisa branca, sapato novo, moreno trigueiro, cara de macho; – “Caros
sitiantes, gente humilde, gente simples, ovelhas amadas do Senhor. O pecado é o
mal do mundo, devemos combatê-lo em nossos lares, ensinando à nossos filhos o
caminho do Senhor.”
         A
assistência babava; como o homem falava bem, parecia tocado pelo sobrenatural.
Todos estavam extasiados, até eu que sou um cachorro fiquei de boca aberta.
Quando o ministro citou um texto do evangelho, a coisa mudou; – “Senhor! A tua
vara me consola.”, Dona Cotinha soltou uma risadinha safada, e algo muito
estranho aconteceu.
         O
pastor colocou a mão direita sobre a própria cabeça, deu sete voltas em torno
do púlpito e gargalhou. A assistência gelou! O jovem Paulinho saiu de perto do
Pastor, e dois rapazes que fariam a coleta, se esconderam. O Pastor abriu uma
maleta, retirou uma longa peruca negra, passou batom nos lábios, arrancou o
casaco e a camisa, colocou um sutiã, uma saia longa e gritou;
        
“Boa noite para quem é da noite… Bom dia para quem é do dia… Cheguei! Meu
nome é Myriam Navalha, fui prostituta, dona de puteiro, alcoólatra e drogada.
Este homem é um charlatão! Veio aqui no sitio enganar vocês, mas eu não vou
deixar. Com esta cara de macho, quem diria! É uma drag, uma transformista, uma
mentirosa. Comam, bebam, transem, façam da vida uma festa, mas respeitem uns
aos outros. Sejam honestos e prestativos, amem para serem amados; não tenham
medo, e parem com esta frescura de acreditar em quem mal conhecem… Fui!”
         Estava
ali na nossa frente o homem vestido de mulher; – “Salafrario!”, gritou Dona
Mariquita.  “Bichona!”, apontou Seu Zé do
Armário, nosso carnavalesco machochô. Dona Cotinha puxou o homem pela mão e o
retirou do recinto. O Pastor Silas pediu silêncio; – “Não vamos jogar pedras!
Viver é complicado. Vocês gostam de me criticar, mas eu sou incapaz de enganar
alguém. A Pomba-gira, Myriam Navalha, está certa; façam da vida uma festa, mas
respeitem uns aos outros. Um viva para a Myriam Navalha! Viva! Viva! Viva!”  
         Jamais
esquecerei Myriam Navalha; que susto! Bom dia para quem é do dia… Boa noite
para quem é da noite.
Omisso, um cão rural.
Gastão Ferreira/2017    
          
        

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