Meu primeiro livro

         Eu
tinha oito anos de idade quando conquistei o meu primeiro prêmio literário; a
melhor redação da classe. Hoje, chegando aos setenta, me pergunto:- “Que será
que uma criança de oito anos escreveu, de tão importante, para merecer um
prêmio? Será que foi a professorinha primária, impressionada pela criatividade
do guri, quem comprou o presente? Qual o nome da mestra?”
         Não
lembro, não lembro, não lembro! Mas de duas coisas nunca esqueci; o prêmio foi o
livro “A Bela Adormecida”, ele tinha letras grandes, muitos figuras, e fez um
grande sucesso na família, pois tirando meu pai e minha mãe, dos irmãos só eu
sabia ler, e eu sou o filho mais velho.
         O
segundo fato jamais esquecido; o meu primeiro, amado, adorado livro, foi recortado
em pedacinhos. Como o terrível fato pode ocorrer? Minha prima, que não vou
dizer o nome, da mesma idade minha, também sabia ler, e se encantou pelo meu
primeiro prêmio literário. Tanto insistiu, rogou, choramingou, que terminei
emprestando o dito cujo para ela, mas pedindo que cuidasse muito bem dele,
minha única posse.
         Tudo
bem! Vou escrever o nome da guria; prima Virgínia. Eu ia todos os dias na casa
de madrinha Noêmia, minha tia e mãe da Virgínia para perguntar se ela já tinha
lido o livro, nada! Demorada para ler! O livro era o único que eu possuía, e a
danadinha estava com ele há quinze dias, e nunca devolvia.
         Lembro
que eu não era assim, digamos, um santinho; eu estava sempre aprontando na
frente das visitas, fazendo careta, perguntando o que não devia, escutando
atrás da porta a conversa misteriosa dos mais velhos, e depois levando
chineladas, que me deixaram profundas sequelas, pois cresci saudável, risonho,
sem traumas, feliz, e com um grande amor pela dona das chinelas, a minha mãe.
         Eu
sei! Eu sei! Eu era aprontão. Invadi o quarto da minha prima, e o que vejo
sobre a cama da menina? O meu adorado livro. O meu livro todo recortado… A
Bela no jardim do palácio cheirando uma flor… A Bela na floresta, cercada de
anões… A Bela, e o príncipe… Dezenas de recortes! Abri o maior berreiro,
queria por quê queria o meu livro de volta, fiz escândalo, barraco, gritei; o
livro já era. Fique “de maus” com a Virgínia por uns quatro dia, depois
voltamos à amizade de sempre.
         Do
ocorrido, tirei algumas lições; passei muitos anos sem emprestar livros para
ninguém, depois desapeguei, e perdi um monte de livros, pois nunca lembro para
quem empresto. A segunda lição; prima é prima, e devemos amá-las e
respeitá-las, nunca mais briguei com uma prima. Na verdade, depois ganhei
muitos e muitos prêmios, quase nem lembro deles, mas do primeiro, eu nunca
esqueci.
         Que
fique bem claro, a única prima com quem briguei feio, foi a prima Virgínia, e
eu tinha oito anos de idade. Depois, já adulto, passava horas proseando com
ela; uma moça culta, e que também gostava de ler, éramos grandes amigos. Digo
éramos porque fazem quase cinquenta anos que não a vejo, mas, mês que vem
espero matar as muitas saudades; um beijo, bem gostoso, no teu coração, prima
Virgínia; devolva o meu livro, guria, pois do primeiro prêmio a gente nunca
esquece. Aí, que saudade de mim!
Gastão Ferreira/2017
            

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