Mãe Nutella

         Crystal
foi criada traumatizada, até hoje não esqueceu a maldade aprontada por seu pai
Juvenal, na época um ajudante de pedreiro desempregado; Papi prometera uma
boneca Barbie, sonho de ostentação da menina mimadinha, mas o que ela ganhou de
presente de aniversário? Uma boneca do Paraguai.
         Cresceu
mal humorada, xingando professores, exigindo sem obter o do bom e do melhor;
trauma infantil é difícil de superar, mas prometeu que no futuro seus filhos
não passariam pela desdita que ela passou.
         O
futuro chegou e tinha um nome, Anderson da Mata, um rico empresário e ocasional
turista na Princesa do Litoral. Cinco meses depois chegaram os gêmeos Jim e Rum
da Mata, também conhecidos por Jim da Selva e Rum da Selva na hora daqueles
apelidos terríveis que só as crianças sabem dar.
         Meninos
superativos, informou o psicólogo pela centésima vez. Vovô Juvenal propôs
algumas chineladas; que horror!  Mamãe Crystal
tirou o telefone celular de última geração dos guris por uma semana, devolveu
com pedidos de desculpas, duas horas depois das crianças jogarem gasolina na
piscina e tacarem fogo.
         Criou
o “momento família”, uma reunião semanal com os filhos, onde contava da sua
infância pobre e tentava mostrar o quanto eles eram felizes; não deu certo, os
pimpolhos não sabiam o que era pobreza. O “dia da reflexão” foi pior ainda,
pois no final da tarde, eles perguntavam pelo significado dos piores palavrões.
Tentou “Yoga infantil”, os serelepes foram expulsos do curso por exigência dos
pais dos outros alunos.
         Duas
temporadas na Disneylândia, uma benção especial do Santo Padre no Vaticano,
férias na Europa, saída no melhor carnaval do mundo, Bloco do Boi, Litrão,
Bloco do Sapo; que nada! Rum e Jim da Selva continuavam infelizes e
consumistas.
         Quando
Anderson da Mata foi preso na Lava Jato, e teve todo o seu patrimônio
confiscado, Crystal e os filhos voltaram em definitivo para a Princesa do
Litoral, todos pobres, pobres de maré, maré. Seu Juvenal, agora viúvo, dia e
noite só ouvia lamentações, e propôs “um momento família”. Foi assim que ele
ficou sabendo do trauma infantil de Crystal, e a razão pela qual ela era uma
“Mãe Nutella”, o pedreiro Juvenal mostrou ao que veio;
        
“Filha, fui a vida toda ajudante de pedreiro, sua mãe foi uma mulher boa,
sempre dividimos o pouco que tínhamos com os vizinhos mais necessitados. Você
não sabe, mas a sua boneca do Paraguai custou a vida de vovó Emerenciana; não
tínhamos condição de comprar uma Barbie para você e nem dinheiro para tanto,
então usamos o dinheiro guardado para os remédios de minha mãe, e o máximo que
conseguimos comprar foi uma boneca do Paraguai. Não envelheci traumatizado! Não
te culpei, e não te culpo pela morte de minha mãe. À partir de amanhã quero ver
todos vocês trabalhando! Já arrumei um emprego de caixa de supermercado para
você, Crystal, e os meninos vão trabalhar comigo, serão meus ajudantes de
pedreiros até concluírem os estudos, senão… Senão, não tem comida!”
         Trabalho!
Que santo remédio, acaba com todos os traumas, Crystal e os filhos que o digam;
ontem estavam felizes atrás do Boi, e sem traumas cantavam; é o Boi… É o Boi,
e é o Boi.
Gastão Ferreira/2017    
          

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