Iguape e suas lendas urbanas

         Muitas
coisas estranhas aconteceram em Iguape, e quase sempre à noite. O cachorro saiu
da mata, e conforme andava pelo acostamento da estrada, aumentava de tamanho;
era um lobisomem? Grandes bolas de luz costumavam seguir os carros que
atravessavam a antiga balsa, depois das 22 horas, no Bairro do Mathias;
extraterrestres na procura de um contato de terceiro grau?
         Os
meninos brincavam no campo Américo Mâncio, de repente se formou um rodamoinho
no centro do gramado, uma gargalhada e a bola de futebol some no meio do roda
vento; um Saci aprontando? Nenhum moleque ficou para ver o final da história.
         Noite
alta, a moça vestida de noiva atravessou chorosa o portão do cemitério, e
desapareceu; um curioso foi espiar, e o portão estava trancado com um cadeado
pelo lado de fora; quem era a jovem? A garota que morreu no dia do casamento?
         A
mulher com a mala pedia carona na estrada da Barra do Ribeira; o rapaz parou o
carro, baixou o vidro e perguntou para onde ela estava indo; a resposta: –
“Para o cemitério!”, seu rosto era uma caveira, o moço desmaiou de susto.
         O
medo dominava na escuridão, poucas pessoas se aventuravam à passar pelo Itaguá
depois da meia noite; um homem vestido à moda do século XVIII, assim do nada,
aparecia na estradinha de terra e avisava; – “Ninguém rouba o meu ouro! Se
tentar, eu mato.”
         O
motorista cansado parou o caminhão de entrega, um pouco antes do Bairro
Subauma, estava quase cochilando quando ouviu um ruído, prestou atenção, o som
era igual ao de um cão fatigado, foi olhar pela janela e apareceu uma mão
peluda que tentou arranhá-lo; graças ao Bonje, que deu tempo dele ligar o motor
e se mandar. O homem-lobo saiu em disparada atrás do carro, mas não alcançou o veículo.
         O
pescador adormeceu dentro da canoa, bem no meio do rio, ao acordar notou um
garoto sentado na popa. O menino sorriu, mostrou um grande tronco que vinha em
direção ao barco, acenou e desapareceu mergulhando nas águas turvas do Rio
Ribeira; era o Negrinho do Rio.
         São
centenas de causos, todos se perdendo. Precisamos resgatar nossa memória
coletiva, nossas lendas urbanas não podem morrer. Iguape tem histórias;
pouquíssimas pessoas sabem que o belo Flamboaiã que enfeita a pracinha atrás da
Igreja das Neves, foi plantado por um dos últimos lobisomens iguapense, de nome
Bidan.
         Nossos
mitos estão morrendo no imaginário popular; há quanto tempo ninguém vê um
boitatá? Uma mula sem cabeça? Um cavalo fantasma? Uma Iara, a mãe d’água,
cantando a margem do rio? Um mísero fantasma passeando pela Praça da Matriz? Um
Saci avisando, “To aqui! To aqui!”. Uma simples assombração pulando o muro do
cemitério?
         Passou
da hora dos saraus contarem os causos antigos, aqueles que foram passados de
pais para filhos; igual as histórias dos tesouros enterrados por piratas. O
menino é o pai do homem, e lá no futuro, ele contará aos netos e bisnetos, os
estranhos causos que ouviu na infância.
         Salvem
as nossas lendas urbanas, elas são a parte mais bonita da nossa história.
Gastão Ferreira/2017

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