Fuzuê no galinheiro
         Sou
um cachorro adolescente, um “canem sapiens”, moro num sitio próximo à cidade de
Iguape. Convivo com muitos animais, e ocasionalmente conto as suas histórias, e
também o que ocorre na zona rural. Semana passada, a briga foi no galinheiro;
coisa feia, e com possíveis consequências para o futuro dos sitiantes.
         Seu
Tonico é dono de um aviário, e o cão Jason é o guardião do local, foi Jason
quem me contou da briga; – O galo Obama não é nativo de nossa região, veio da
cidade grande, e sabe de muitas coisas desconhecidas para a maioria das aves
caiçaras. Na atualidade é o galo chefe do galinheiro; um macho alfa, mandão, e
que não atura desaforo. Três piados e parte para o confronto, arrumou algumas
inimizades, coisa normal, pois num galinheiro quem manda é o galo chefe.
         O
galinho Big-boy, assistente do chefe Obama, cria da casa, e muito estimado
pelas franguinhas jovens, pelos galos já aposentados, e pelas penosas da melhor
idade, entrou em rota de colisão com o líder máximo; nada para se estranhar! Os
vices sempre brigaram com os não vices. Quem não lembra da rixa entre a galinha
Téte e o velho galo Waldo! Caso de polícia.
         Parece
que o entrevero ocorreu por ciúmes, o brilho do Big-boy estava ofuscando a luz
de Obama; coisinha boba, e que poderia passar desapercebida, o galinheiro é uma
grande família, e qual família não tem seus arranca-rabos? O problema é que a
confusão escapou para a mídia; a raposa Sujão, inimiga de Obama, já postou: –
“É dos meus! Bem-vindo a vida real, Big-boy.”
         A
vida no sitio é aparentemente pacata, mas só na aparência; todos se metem na
intimidade uns dos outros, muitas fofocas, muito diz-que-diz, e cada qual
puxando a manjuba alheia para o seu prato. Os animais silvestres que nos
rodeiam se acham os únicos donos do pedaço: – “Estamos por aqui bem antes do
Pedro Alvarez Cabral, nos respeitem!”
         Os
gambás, os bugios, os cágados, as cobras venenosas, as raposas, estão sempre
tirando partido das escaramuças que ocorrem; estes bichos não pensam na
comunidade, quanto maior a confusão mais fácil de obter uma fatia do bolo.
         Mudei
o meu conceito a respeito do cão Jason, eu achava que ele era só um cachorro
sem noção, um pau mandado do dono do sitio, que nada! Ele também é um canino
sapiens: – “Sabe Omisso, meu amigão, essa desavença no galinheiro não leva à
nada de bom; a vida é breve, tudo passa rápido, e devemos aproveitar ao máximo
o milagre do existir. Tanto o chefe Obama, como o galinho Big-boy devem esfriar
a cabeça, pensar no bem do galinheiro, pois as raposas e demais animais
predadores só esperam uma chance para se apossarem do quintal.”
         Jason
está certo, o galo Obama está arrumando o galinheiro, ele é o tempo presente.
Big-boy será o futuro, mas um futuro que começará com as boas mudanças do
passado. Obama e Big-boy se complementam; que a tempestade passe longe do
sitio, e que possamos viver em paz e harmonia, sem esquecer que o importante é
o sítio e não as picuinhas da vida.
Omisso, um cão rural.
Gastão Ferreira/2017  
          
        

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