Diploma de “O melhor da cidade”

         Quando o Seu Antunes Dias Moreno caiu
da cadeira e sentiu uma fisgada no joelho, o bicho pegou; frequentador assíduo
do boteco “Bar Caiado”, teve um sério desentendimento com Dito Sangue de Boi,
proprietário da birosca; – “Desta vez não vou deixar barato! Ou você paga o
tratamento médico, ou lhe tasco um processo.”
         – “Por amor do Bonje, seu Moreno! Não
faça isso. Com esta crise braba, mal consigo pagar as contas de água e luz.”
         – “Deixe de ser moleque, Ditinho!
Então, frequento há muito tempo o seu botequim, e esse não foi o primeiro
acidente que sofro aqui… Nada de conversa fiada! Vou procurar os meus
direitos, os direitos do consumidor.”
         – “Seu Moreno! No seu lugar eu não
faria tal coisa. A sua lista de fiados não pagos é grande.”
         – “Nada de chantagem! Você devia dar
graças à Deus de ter alguns clientes. Vamos começar pelo nome do bar; Bar
Caiado. Há quanto tempo essas paredes não veem uma demão de cal? Nem o nome do
teu ganha pão você consegue honrar!”
         – “Calma, Seu Moreno! Também não
precisa ofender.”
         – “Não é ofensa, Ditinho! É a
realidade. Olha quantos diploma na parede; “O melhor da cidade”, “O Melhor do
Bairro”, “O Melhor da Rua Sapo”, e aquele ali então, que coisa ridícula, “O
Filho Amado da Princesa”. Olha para esta meia-sola! Chão rachado, goteiras,
janelas quebradas… Eu, hem!”
         – “Não tenho culpa se todo o ano eu
ganho um título de honra ao mérito, sou um batalhador. E sabe de uma coisa! O
senhor está é com ciúmes. O seu carrinho de pipocas nunca ganhou um mísero
diploma de a melhor pipoca da cidade.”
         – “Nem vou retrucar! Onde já se viu dar
um diploma de “A melhor pipoca da cidade”, parece que bebe!”
         – “Pois fique sabendo que o Seu Joaquim
do Milho Verde, tem dois diplomas de “A melhor pipoca”, viu só!” 
         – “Semenino, pois não me diga! Vamos
esquecer o tombo, a dor no joelho até já passou. Vamos prosear mais um pouco,
estou interessado nos pormenores dos ditos diplomas…”
         – “Tudo começou quando um dos nossos
prefeitos ganhou o título de “O prefeito do ano” e a cidade só andava para
trás; ruas esburacadas, lixo sem recolher, falta de merenda nas escolas, e
outras coisas cabeludas que todo mundo sabia, mas não podiam falar… “
         – “Lembro desta época, todo mundo
estufando o peito, cheio de orgulho de morar numa das dez melhores cidades do
país…”
         – “Então, nós os comerciantes nos
reunimos e tivemos uma conversa séria com o finado, o que era o prefeito na
ocasião…”
         – “Sei qual era! E daí, o que a
conversa teve à ver com os diplomas?”
         – “O homem chamou um assessor e
começaram a cochichar num canto, e depois falou; – Amanhã o problema de vocês
será resolvido, e todos vamos sair ganhando, aguardem, e agora desocupem a
moita que tenho um assunto sério para tratar com um grileiro de fora.”
         – “E o que ele fez, que todos os
comerciantes pararam de reclamar?”
         – “Começou a distribuir diplomas de
honra ao mérito aos melhores da cidade, realmente foi uma honra…”
         – “Com certeza! Uma grande honra.”
         – “Mas cada um de nós não sabia que
cada concorrente também tinha ganho um diploma igual…”
         – “Como assim? Não Sabiam!”
         – “Comerciante quase não sai, fica
enfurnado atrás de um balcão, e só fica sabendo de algo se for fofoca das
feias…”  
         – “Mas acabaram descobrindo a
sacanagem?”
         – “Zé Arquivo cortou o cabelo na
barbearia “Corto cabelo e pinto”, e comentou que Andromeu Risadinha era tido
como o melhor cabeleireiro da cidade, ganhou até um diploma do prefeito. Pedro
Burro falou que não, que o melhor salão de barbeiro era o do Dito Velho, ele
também tinha na parede um diploma para comprovar. Para encurtar a história, dos
quinze fregueses que estavam no bar, e parece uma mentira, mas cada um deles
cortava cabelo em salões diferentes, todas as barbearias apresentavam
orgulhosamente ao distinto público um diploma de “o melhor barbeiro do ano”,
muito estranho!”
         – “Então o diploma foi um golpe do
prefeito? Que Deus o tenha em bom lugar!”
         – “Sim! Um cala a boca nos
comerciantes, mas valeu à pena, pois os turistas ficavam encantados em ser
servidos nos melhores estabelecimentos, aqueles que possuíam um diploma;
entendeu porque a pipoca do Seu Joaquim do Milho Verde é considerada a melhor
da cidade e o carrinho dele tem fila de espera?”
         – “Ditinho, abre uma garrafa de vinho
Sangue de Boi, e me conta como é que se faz para se obter o tal diploma…”
         – “É assim que se faz; primeiro, o
senhor vai e fala com o …”
(Desculpem,
mas o autor não pode contar como se faz para se obter um diploma de “O melhora
da cidade”; vamos respeitar as maracutaias alheias)
Gastão
Ferreira/2017   

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