Caldinho de manjuba

– A descoberta –

         Passa
ano e sai ano, e as coisas só pioram; adeus Mercado Municipal, adeus Posto da
Marinha, adeus clube Primavera, adeus bairro de Ilha Comprida, adeus Sambão,
adeus Alvorada, adeus à muitos pontos comerciais, lojas e lanchonetes que não
mais existem.
         Expulsaram
os moradores nativos das terras da Juréia; sem trabalho, sem futuro, sem
profissão. No início dos anos oitenta a única tribo indígena existente na
região ficava nos confins de Pariquera, na divisa com o bairro de Subauma em
Iguape; hoje uma vasta extensão do município passou a ser “terras indígenas”.
        
meio século o lagamar era piscoso, sem manguezal frente à cidade; camarão
branco, marisco, caranguejo, eram oferecidos de porta em porta. As tainhas
vinham dos muitos cercos de taquara existentes no mar de dentro. O assoreamento
e o capim africano chegam para ficar.
         Parecia
conversa de bar, ou segundo algumas pessoas, conversa de “gente de fora” que
não quer o bem da cidade; gente cega que se nega a dar dois Reais à cada
pedinte, à cada curumim que assedia a população… Não podemos continuar
confundindo “disco voador” com “drone”, falou seu Baltazar.
         Seu
Baltazar é pescador, ajudante de pedreiro, e cientista amador nas horas vagas.
Foi ele quem descobriu a origem do nosso esquecimento das coisas do passado.
Não ficou famoso, pelo contrário, quase foi expulso da cidade. Graças ao Bonje,
ele não foi embora, pois seus parentes não deixaram ele partir.
         Uma
equipe de cientistas, vinda da capital, chegou para comprovar a descoberta de
Seu Baltazar; vieram de helicópteros, enfrentaram mutucas, cobras venenosas,
confundiram cobra caninana com jaracuçu, mutuca com mamangava, foram picados
por mosquito pólvora, comeram bagre africano por robalo, e gravaram alaridos de
guaribas achando que eram onças no cio; coisa de gente que só conhece mato por
fotografia.
         No
final da pesquisa foram conversar com o Seu Baltazar; defenderam os índios, as
reservas ambientais, o capim africano, a canabis, e a maneira caiçara de ser.
Seu Baltazar questionou a tal “maneira caiçara” de ser; – “Como assim? Maneira
caiçara de ser.”
        
“Viver junto a natureza, sentir o vento leste, pescar de linhada, espiar o pôr
do sol, comer caça, remar, remar, remar; quem não gosta, o caminho da
rodoviária é logo ali…”
        
“Percebo que o senhor conversou com alguém que conheço”, disse Seu Baltazar,
“todos nós conhecemos o caminho da rodoviária, e ninguém quer ir embora da
cidade que amamos, o que queremos saber é o porquê temos memória curta?”
        
“Não detectamos nada prejudicial ao meio ambiente, ar puro, montanhas
verdejantes, água de ótima qualidade; cidade antiga, calçadas centenárias, sem
assaltos, sem drogas, pessoas de bem com a vida, fila nas lotéricas, bancos e
supermercados; tudo normal.”
        
“Obrigado pela visita, gostaram do caldinho de manjuba? É uma das nossas
especialidades.” Perguntou Seu Baltazar. 
        
“Uma delícia! Até mais ver, Seu Baltazar, e se cuide.” Disse o chefe da equipe
de cientistas.
         Os
cientistas não ficaram sabendo, mas a teoria do Seu Baltazar foi confirmada;
caldinho de manjuba! Eis a causa de nosso esquecimento das conquistas passadas
e das perdas do presente. Caldinho de manjuba! Quem nunca tomou? Seu Baltazar
nunca experimentou, eis o motivo de ele lembrar dos tempos de dantes, e
reclamar, reclamar, e reclamar com ou sem caminho da rodoviária.
Gastão Ferreira/2017
             

Deixe um comentario

Livro em Destaque

Categorias de Livros

Newsletter

Certifique-se de não perder nada!