Pausa para descanso

         A
onça parecia um traste velho, um farrapo, passara a semana urrando na mata,
correndo de baixo para cima, e de cima para baixo, atrapalhando a soneca dos
animais idosos, e apavorando os filhotes recém nascidos. Mil promessas, nunca
realizadas em quase trinta anos de esperteza, era o que vendia à bicharada
doida por mudanças, transparência, e honestidade. Cansada, a onça foi beber
água.
         No
laguinho, um bando de macacos “juntos & misturados”, esperavam a onça
saciar a sede, e comentavam; – “Tomara que ela atropele alguém! Se Bote
Certeiro acertar o pulo estaremos salvos, comida e bebida grátis por mais
quatro anos, muitos foguetes e festas no escurinho da mata.”
         O
jovem gavião carcará, com um olho na onça, e outro no tucano, torcia para que o
veterinário tivesse envenenado a água do laguinho. Tinha olheiros entre os
“juntos & misturados”, os jovens bugios ávidos por festanças. Pena que o
capitão, único que possuía uma arma, estava perdido na floresta.
         O
tucano comia pelas beiras, agia em silêncio, nada de foguetes, passeatas, ou revoadas
de pássaros comprados com promessas duvidosas. Esperava pacientemente que o
jovem gavião, inexperiente, atacasse a onça no momento certo, e desse um final
feliz à história.
         O
veterinário, acostumado a tratar de cães e gatos, estava na dúvida; fizera um
juramento de salvar vidas, não podia quebrar a promessa. Não! Não! Nada de
matar a onça, ou depenar o gavião. Gostaria de ser mais próximo do capitão,
fazer um conchavo tipo; posso sedar os pássaros, e a onça. O capitão os coloca
em seu navio, e os joga em alto mar. Um ótimo plano, e que talvez dê resultado.
         O
capitão armado até os coturnos com faca, bomba de gás lacrimogênio,
metralhadora, e astúcia, estava perdido na densa floresta. Ouvia o rugir da
onça, os gritos do carcará, e não conseguia localizá-los. Seus macacos
amestrados, “juntos & misturados” eram velhos, e como se sabe, macaco velho
não põe a mão em cumbuca, podiam a qualquer momento trocar de lado, e se
venderem por bananas à quem fizesse melhor oferta.  
         Os
macacos espiavam a movimentação, sabiam a hora de tomar partido. Nada de dar a
cara à tapa grátis, jamais esqueceram de Tião Banana, um macaquinho que deu a
cara à tapa antes da hora, e perdeu os dentes. Juntos e misturados aplaudiam hora
à um, hora à outro, pois no final estariam juntos e misturados ao vencedor.
Coisas da floresta! A coisa estava complicada.
         Um
famoso beija-flor, aquele que apagou um incêndio na floresta, e que quase
morreu de tanto carregar água no bico, anotou a posição dos concorrentes ao
grande prêmio; Tucano na dianteira, e muito quieto no seu galho. Onça
disputando aos berros, e com garras afiadas o segundo lugar. O persistente
capitão era o terceiro colocado, seguido pelo ético veterinário, e em quinta
colocação o jovem carcará. Não deu tempo de ver os outros competidores, pois um
bando de macacos “juntos e misturados” iniciaram uma algazarra, todos duvidando
das anotações do beija-flor. Quem viver, verá!
Gastão Ferreira/2016   
        
        

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