Parobé, a rua da minha vida
Esteio/RS
é uma cidade plana, mas a rua Parobé fica sobre uma colina. Há quase sessenta
anos a cidade tinha menos de três mil habitantes; de nossa casa, bem no topo do
cerro se avistava o Rio dos Sinos e o Morro de Sapucaia. Era uma rua de terra,
poucas casas, muitas árvores frutíferas. Começava na moradia do tio Antônio e
terminava na casa da Dona Gessi, umas doze habitações no máximo.
é uma cidade plana, mas a rua Parobé fica sobre uma colina. Há quase sessenta
anos a cidade tinha menos de três mil habitantes; de nossa casa, bem no topo do
cerro se avistava o Rio dos Sinos e o Morro de Sapucaia. Era uma rua de terra,
poucas casas, muitas árvores frutíferas. Começava na moradia do tio Antônio e
terminava na casa da Dona Gessi, umas doze habitações no máximo.
Ali
fui criança, adolescente, mocinha. Foi ali que casei, que vieram os filhos e os
netos. Meus avós visitavam a casa, vovó Julieta, quando bem velhinha, morou
conosco. O pai do meu pai, vovô Galvão, que tinha medo de passar sobre a ponte
do Rio Guaíba, um dia ganhou coragem e veio conhecer a casa do filho.
fui criança, adolescente, mocinha. Foi ali que casei, que vieram os filhos e os
netos. Meus avós visitavam a casa, vovó Julieta, quando bem velhinha, morou
conosco. O pai do meu pai, vovô Galvão, que tinha medo de passar sobre a ponte
do Rio Guaíba, um dia ganhou coragem e veio conhecer a casa do filho.
Casal
de numerosos filhos, Seu Barroso e Dona Anadir, meus pais, apesar da pobreza da
época, recebiam de braços abertos e sem reclamação aos parentes vindos de outras
estâncias; alguns em busca de emprego, outros de médicos, e outros apenas
passear. Irmãos, irmãs, sobrinhos e primos de meus pais passaram breves
temporadas na casa da rua Parobé.
de numerosos filhos, Seu Barroso e Dona Anadir, meus pais, apesar da pobreza da
época, recebiam de braços abertos e sem reclamação aos parentes vindos de outras
estâncias; alguns em busca de emprego, outros de médicos, e outros apenas
passear. Irmãos, irmãs, sobrinhos e primos de meus pais passaram breves
temporadas na casa da rua Parobé.
Ruazinha
calma, meus irmão brincavam de carrinho de rolimã, soltavam pandorga, jogavam
pião, bolinha de gude, taco, e subiam em árvores. As meninas pulavam
amarelinha, escravos de Jó, e outras brincadeiras que marcaram minha infância
feliz.
calma, meus irmão brincavam de carrinho de rolimã, soltavam pandorga, jogavam
pião, bolinha de gude, taco, e subiam em árvores. As meninas pulavam
amarelinha, escravos de Jó, e outras brincadeiras que marcaram minha infância
feliz.
No
terreno ao lado do nosso Aldrovandro e Diva, recém casados construíram sua
casa; todos os seus filhos nasceram ali, e Katia é minha comadre, amiga de
infância, uma segunda mãe para meus dois filhos, Paula e Pablo. Ontem eu era
uma menina sonhadora, e hoje sou uma vovó, toda a minha história de vida se
passou na rua Parobé.
terreno ao lado do nosso Aldrovandro e Diva, recém casados construíram sua
casa; todos os seus filhos nasceram ali, e Katia é minha comadre, amiga de
infância, uma segunda mãe para meus dois filhos, Paula e Pablo. Ontem eu era
uma menina sonhadora, e hoje sou uma vovó, toda a minha história de vida se
passou na rua Parobé.
De
uma simples casa de madeira, o lar ancestral se transformou em uma casa de
pedra, com direito a lareira e jardim. Ah, o jardim! As rosas de Dona Didi, a
visita dos beija-flores, a grama macia onde meu pai costumava contar seus
causos à filharada, o grande cinamomo, o portão. Naquela época, a casa tinha
quintal com pés de goiaba, laranja, limão; criamos um porco para o Natal, e
tivemos vários cachorros. A vida foi passando, passando, passando e de repente
ela voou.
uma simples casa de madeira, o lar ancestral se transformou em uma casa de
pedra, com direito a lareira e jardim. Ah, o jardim! As rosas de Dona Didi, a
visita dos beija-flores, a grama macia onde meu pai costumava contar seus
causos à filharada, o grande cinamomo, o portão. Naquela época, a casa tinha
quintal com pés de goiaba, laranja, limão; criamos um porco para o Natal, e
tivemos vários cachorros. A vida foi passando, passando, passando e de repente
ela voou.
A
irmã mais velha casou, a outra mana também se casou e foi morar em Goiás, meu
irmão foi para São Paulo e nunca mais voltou. Os cabelos dos meus pais
embranqueceram, vovô Juca morreu. Uma pausa e a morte foi recolhendo parte da
família; primos, tios, tias, vovó. Acho que ela, a morte, gostou do serviço, pois
restam da parte de nosso pai apenas uma tia, e eles eram doze. E da parte de
nossa mãe ficaram quatro, dos catorze irmãos.
irmã mais velha casou, a outra mana também se casou e foi morar em Goiás, meu
irmão foi para São Paulo e nunca mais voltou. Os cabelos dos meus pais
embranqueceram, vovô Juca morreu. Uma pausa e a morte foi recolhendo parte da
família; primos, tios, tias, vovó. Acho que ela, a morte, gostou do serviço, pois
restam da parte de nosso pai apenas uma tia, e eles eram doze. E da parte de
nossa mãe ficaram quatro, dos catorze irmãos.
Uma
outra casa foi construída no terreno, a minha casa; casei com Paulo, vieram
Paulinha e Pablo, nossos filhos. Outros tempos, outros costumes. Meus sobrinhos
adoravam vovô Dedé e vovó Didi, acampavam no quintal de casa, se divertiam
adoidados; eu e Paulo trabalhávamos, nossas crianças cresceram saudáveis,
alguns sobrinhos passavam férias com tia Ioiô e tio Paulinho; tempos felizes,
muitos risos, muitas histórias.
outra casa foi construída no terreno, a minha casa; casei com Paulo, vieram
Paulinha e Pablo, nossos filhos. Outros tempos, outros costumes. Meus sobrinhos
adoravam vovô Dedé e vovó Didi, acampavam no quintal de casa, se divertiam
adoidados; eu e Paulo trabalhávamos, nossas crianças cresceram saudáveis,
alguns sobrinhos passavam férias com tia Ioiô e tio Paulinho; tempos felizes,
muitos risos, muitas histórias.
A
primeira a morrer na casa da Parobé foi vovó Julieta, depois mãe Nadir, e um
tempo depois pai Barroso. Nossos vizinhos também partiram. A rua Parobé mudou,
de uma ruazinha de terra passou a rua asfaltada, arborizada, mas as calçadas
continuaram de grama. Até o Tomé de Souza, uma escolinha de madeira, se
modernizou, e hoje é um colégio imenso.
primeira a morrer na casa da Parobé foi vovó Julieta, depois mãe Nadir, e um
tempo depois pai Barroso. Nossos vizinhos também partiram. A rua Parobé mudou,
de uma ruazinha de terra passou a rua asfaltada, arborizada, mas as calçadas
continuaram de grama. Até o Tomé de Souza, uma escolinha de madeira, se
modernizou, e hoje é um colégio imenso.
Meus
filhos também casaram, primeiro o Pablo, e depois a Paulinha, a casa ficou
vazia… Hora de mudar! Aqui fui feliz, aqui chorei, aqui enterrei meus pais,
vi meus irmãos partirem para lugares distantes. Casa abençoada por tantas
festas! Agradeço a Deus os momentos felizes, as horas amargas, o longo
aprendizado… Tudo é vida.
filhos também casaram, primeiro o Pablo, e depois a Paulinha, a casa ficou
vazia… Hora de mudar! Aqui fui feliz, aqui chorei, aqui enterrei meus pais,
vi meus irmãos partirem para lugares distantes. Casa abençoada por tantas
festas! Agradeço a Deus os momentos felizes, as horas amargas, o longo
aprendizado… Tudo é vida.
Amanhã
estarei de mudança! Os filhos criados, os netos chegando, a vida passando. Vou
morar perto do mar. Quero envelhecer sentindo a brisa marítima, pisando a areia
da praia, sonhando com navios; aprendi que a vida é apenas um breve passeio,
que a única casa que temos é o nosso corpo, casa de nossa alma imortal. Minha verdadeira
casa levo comigo igual caramujo; que o futuro possa ser risonho, que meu
entardecer traga um lindo por de sol. Na minha memória guardo a rua Parobé,
minha história de vida, pedaços de felicidade, e minha amiga saudade, esta
companheira inseparável. Obrigada rua Parobé, aqui eu fui feliz. Adeus!
estarei de mudança! Os filhos criados, os netos chegando, a vida passando. Vou
morar perto do mar. Quero envelhecer sentindo a brisa marítima, pisando a areia
da praia, sonhando com navios; aprendi que a vida é apenas um breve passeio,
que a única casa que temos é o nosso corpo, casa de nossa alma imortal. Minha verdadeira
casa levo comigo igual caramujo; que o futuro possa ser risonho, que meu
entardecer traga um lindo por de sol. Na minha memória guardo a rua Parobé,
minha história de vida, pedaços de felicidade, e minha amiga saudade, esta
companheira inseparável. Obrigada rua Parobé, aqui eu fui feliz. Adeus!
Gastão Ferreira, para Iolanda Ferreira
Soares/2016
Soares/2016
Gastão Ferreira começou a publicar seus textos aos 13 anos. Reconhecido por suas crônicas e poesias premiadas, suas peças de teatro alcançaram grandes públicos. Seus textos e obras estão disponíveis online, reunidos neste blog para que todos possam desfrutar de sua vasta e premiada produção.