O segredo da Princesa

         Está
para completar 478 anos, uma menina, comparada com sua prima Roma. Cabelos e
olhos negros, esguia e esbelta, poucos exercícios além dos banhos de cachoeira
e mergulhos no lagamar. Filha de Cananéia com um aventureiro espanhol, a jovem
Iguape teve à quem puxar; caiçara da gema, criada com caldinho de manjuba e
frutos do mar, tainha na folha de bananeira, pirão de bagre com mandioca, cará,
cascudo, carne de tateto e farofa de raposa. Um milagre! Nunca engordou.
         Conheceu
muita gente, e muitas vezes se apaixonou; coração partido por tantos golpes do
baú. O único que realmente a amou foi um guerreiro, chefe de tribo, mui
valente. Ele partiu para a guerra e nunca mais voltou. Deixou uma filha, a
cunhataí Porongaba, uma mocinha chorona e que ficou famosa por seus chiliques.
Tantas lágrimas verteu que deu origem a um laguinho; a Fonte da Saudade.
         Os
muitos amores deixaram marcas profundas na Princesa, todos aproveitadores,
engambelavam a donzela com falsas juras, com alguns deles teve filhos e filhas.
Mal nasciam e já eram separados da mãe, assim foi com Eldorado, Cajati,
Pariquera e muitos outros. Aprendeu com o tempo à se precaver, nada de
bastardinhos à arrancar seus pedaços. O último drama foi com a filha mais nova,
a Ilha Comprida.
         Marataiama!
Belo nome indígena. A guria cismou, detestava o nome. Queria por que queria ser
chamada de Ilha Comprida, a mãe não gostou, mas aceitou. Ainda bem! Pois
poderia ter adotado outros nomes; Shirley, Lindalva, Maria das Dores. A
separação foi dolorosa, mamãe Iguape perdeu horrores em arrecadação. O bom foi
que a menina saiu de casa virgem e ainda não encontrou o seu grande amor.    
         Estava
a linda Iguape posta em sossego, não ia para a frente, e nem voltava aos tempos
de dantes, estagnou. O remédio foi darem um belo título à sonhadora; Princesa.
A coisa agradou! Sempre teve rompantes de nobre apesar de pobre; comia mariscos
das pedras e arrotava lagostim. Os muitos foguetes e rojões haviam abalado seus
nervos, o Valo Grande surucou, o capim africano sufocou o manguezal, os pedintes
se apossaram de praças e jardins; a bela agonizava lentamente. O estranho é que
não envelhecia! Continuava a mesma mocinha que fugira de casa em 1538. Mamãe
Cananéia ficou preocupada, mãe é mãe! Chamou a filha para uma conversa séria.
Por que a Princesa não envelhecia? Quis saber.
         Iguape
guardava muitos segredos; alguns bem bobinhos, tipo, quem matou o cachorro a
pauladas? Quem roubou a casa da Dona Benedita? Qual mistério envolve o
enriquecimento de alguns de seus súditos? Outros são segredos cabeludos; quem é
o pai do filho da Quitéria? Quem pagou as plásticas da mocinha ingênua e tola?
         O
maior de todos os mistérios é a sua eterna juventude; 478 anos e corpinho de
vinte, carinha de adolescente, dentes perfeitos, sorriso sapeca… O sonho da
imortalidade! Cananéia insistiu, perseverou, prometeu ajuda financeira e nada
de obter resposta. Propôs um título de rainha, a guria aceitou e contou para a
velha mãe o segredo; água da Fonte do Senhor.
         A
água da Fonte sempre foi milagrosa; quem beber sempre volta, conta a lenda
urbana. A Princesa não sabe, mas mamãe Cananéia está pensando em engarrafar a
água para vender… Mais uma vez a princesinha sem noção foi enganada, e desta
vez pela própria mãe… Tadinha!
Gastão Ferreira/2016     

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