O helicóptero da Princesa

         A
Princesa despertou eufórica. Há quanto tempo não acordava tão feliz! Ah, o
inverno! Noites silenciosas, sem cantorias e gritos nas ruas desertas, poucos
foguetes, os meninos do mal não pulam os muros, e nem invadem as casas dos
velhinhos desprotegidos. Os moradores de rua buscam um abrigo mais seguro,
bares e lanchonetes fecham mais cedo, até os pássaros voam menos.
         Sol
de inverno, sol fraquinho, bom para passear de carruagem; os cavalos necessitam
se exercitar. Hora de uma vistoria na reforma do trapiche da Barra do Ribeira. Chamou
Josephus, seu secretário particular, segurança, cabeleireiro, e primeiro puxa
saco; – “Josephus! Mande preparar a carruagem número cinco. Vamos até a Barra
do Ribeira.”
         –
“Nossa! Há quantos séculos a senhora não visita a Barra, alteza. Pelo que
lembro, a última vez foi quando encontraram a imagem do Bonje. Fomos de navio,
a senhora acenando para os ribeirinhos, os nativos assaram tainha na brasa para
recepciona-la; bons tempos!”
         –
“Aquele convescote marcou época! Foi a primeira festa da tainha realizada no
reino, e pelo que dizem o peixe continua caro até hoje.”
         –
“Por qual caminho Vossa Majestade prefere chegar a Barra?”, perguntou Josephus.
         –
“Pelo normal, vamos de navio, e levamos a carruagem a bordo…”
         –
“O Rio Ribeira assoreou faz um bom tempo, não mais existe navegação fluvial.
Agora temos duas estradas ligando o centro da cidade ao longínquo bairro rural;
uma modernosa, asfaltada, e a outra um tanto aíva, que parte da ponte do
Mathias…”
         –
“Nossa! Temos até ponte no reino. Quanto progresso! Vamos pelo caminho da
ponte…”  
         –
“Impossível majestade! Uma onça assassina anda solta por lá, fomos informados
que feriu gravemente um sitiante, e depois escafedeu-se pelo mato…”
         –
“Toda a onça é um perigo! Acho que nunca vamos conseguir acabar com toda a
espécie, e as de menor porte, as oncinhas, são as piores…”
         –
“Menos, Majestade! São animais silvestres, protegidos por lei, tímidas por
natureza, mas quando bebem, e como bebem! Viram uma fera.”
         –
“Então o jeito é ir pela estrada modernosa. Mande preparar a carruagem
imediatamente.”
         –
“Alteza, os cavalos não conseguirão vencer a subida dos morros. Estive
pensando, dei uma lida nos relatórios, está entrando uma grana alta no caixa do
reino; pré-sal, defesa de biosfera, área de proteção ambiental… Que tal
comprar um helicóptero? Vai arrasar!”
         –
“Nem morta! Se a moda pega, pobre reino. Já não basta cada príncipe que assume
o trono comprar um carro zero, sem necessidade? Não! Nada de helicóptero.”
         –
“Deixa de ser mão de vaca, Princesa! Sua filha Ilha encomendou um
helicóptero…”
         –
“O quê? O quê? Se a lambisgoia comprou, eu também posso, não quero ficar por
baixo… Compre dois de uma vez só.”
         –
“Dois? Não vamos exagerar, alteza! O bicho é caro, e o reino está caindo aos
pedaços, falta saúde, segurança e muitas outras coisas.”
         –
“Tudo bem! Compramos apenas um, mas juro que não emprestarei para viagens ao
Chile, Uruguai, Paraguai…”
         –
“Sem chance! O tempo das viagens internacionais já passou… Vou mandar comprar
imediatamente a novidade.”
         –
“Avise quando chegar, o primeiro voo será até a Barra do Ribeira, quero
vistoriar o novo trapiche.”
         –
“Oh coitada! Demorô…”
Gastão Ferreira/2016
           

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