O gênio do celular

         Na
época de Aladim, ostentação era ter uma lamparina maneira; a lampa poderia ser
de barro, cobre, prata ou ouro. Naquele tempo não tinha produção em escala
industrial, mesmo assim existiam milhares de lâmpadas, e em apenas uma delas morava
um gênio, aliás um gênio muito safado.
         Aladim
ficou rico, casou com uma princesa, viveu muitas aventuras, comeu do bom e do
melhor, engordou, ficou careca, perdeu os dentes e foi morar com Alá. Livre de
Aladim, o gênio silenciou e por séculos se manteve invisível, e sem realizar
nenhum desejo aos humanos.
         A
Lâmpada Maravilhosa ficou esquecida por centenas de anos; um homem-bomba
detonou o velho palácio, antiga morada de Aladim, matando várias pessoas. No
meio dos escombros o menino Mohamed encontrou a lâmpada e a vendeu para um
sucateiro chinês. Na China o objeto foi reciclado e se transformou num moderno
celular.
         A
garota Charlene, filha de Ditinho Pega-leve, ganhou um merecido presente;
prometera ao pai que esqueceria a piscina da Fonte do Senhor, os meninos
sapecas do Porto da Balsa e do nascer de sol no Morro do Espia. Papai Ditinho,
muito orgulhoso pelo esforço da filhota, lhe deu um belo celular e o celular
veio da China. 
         Com
o mimo, Charlene se sentiu a última jaguatirica da mata atlântica, e saiu por
aí fotografando a tudo e a todos; as coleguinhas morriam de inveja. Charlene
fotografava cachorro perdido, índio vendendo palmito, casais transando na orla
do mangue, gente cheirando, pedrejando, xingando; tirava foto de árvores,
praças, ruas alagadas, das nuvens do céu, enfim, passou na sua frente e lá
estava a foto.
         Charlene
estava se achando o máximo, e numa bela noite fez o seu primeiro self frente ao
espelho; flash em espelho é coisa de aprendiz de fotógrafo, estraga qualquer
foto. Uma fumaça saiu do celular e eis que se forma uma estranha figura. A
garota assustada pergunta: – “O senhor participou do Bloco da Dorothea e
esqueceu de tirar a fantasia?”
        
Não, criança! Eu sou um gênio e você me libertou. Vou lhe conceder três
desejos.
        
Caramba! Não sei como o senhor invadiu o meu quarto. Vestido com está roupa
egípcia e este turbante ridículo. Cai fora, cara!
        
Minha linda e inteligente estudante, este traje é árabe, e eu sou o gênio do
celular. Faça logo os três pedidos!
        
Só porque sou loira está me tirando! Chispa da minha casa seu capeta.
        
Santa Paciência! O que um mísero gênio tem que suportar para conquistar a
liberdade… Faça os pedidos ou vai levar uns tabefes, sua imbecil!
        
Calma! Calma! Ando meio estressada desta vidinha pobre, destas invejas bobas,
de tantos diz-que-diz. Quero morar num lugar onde todos são felizes, quero
conviver com gente boa e também quero ser linda e maravilhosa sem photoshop …
Satisfeito, seu gênio do celular?
        
Seus desejos foram realizados … Adeus!
         Charlene
desapareceu sem deixar vestígios. A família desesperada pede ajuda e ninguém
sabe e ninguém viu. Seu amigo Maicon jura que Charlene está morando no face
book, o único lugar no mundo onde todos são felizes, lindos e bons. 
Gastão Ferreira/2016  

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