O Capitão do Mato 

                Não existem
segredos!’, exclamou o contador de história; – “Notem este caso, ocorrido no
final do século XVIII, e que recentemente foi elucidado.”
                Quando a bela Melissa foi raptada os habitantes da
vila entraram em pânico; – “Melissa? A filha do Capitão do Mato, impossível!
Quem teria coragem para tanto? O homem era uma fera. Enfrentou desarmado
perigosos flibusteiros, e todos armados de afiados punhais.”
         Com
o Capitão ninguém buscava briga; domador de cavalos, pegava índios a unha, caçava
escravos rebeldes, matador de onças. Espancava desafetos, participava de
procissões, carregava o andor. Um homem piedoso, e temente à Deus. Coitado do
infeliz que o desafia; algo muito grave estava para ocorrer.
         Caiobá
era cria da casa de um inimigo mortal do Capitão do Mato, era filho de uma
índia com um escravo fujão; cabelos da mãe, e a cara do pai. Cresceu por ali,
meio largado. Curumim inteligente, aprendeu a ler escondido com a professora
Lurdinha Sólita, uma balzaquiana de alma nobre, mas que usava o guri como portador
de recados aos muitos pretendentes à sua mão.
         Sinhazinha
Melissa, menina sonhadora, gostava de ler romances água com açúcar, e
acreditava piamente em tudo o que os livros contavam. Seu grande sonho, aliás
seu único sonho, era casar com um príncipe encantado. Aos quinze anos descobriu
que príncipes encantados não existiam. A decepção mudou sua vida para sempre;
passou à querer conhecer o mundo.
         Lurdinha
Sólita emprestou livros de história universal e geografia à Melissa, e foi
assim que Caiobá e Mel se conheceram. Seus sonhos eram os mesmos; fugir da vila,
conhecer o vasto mundo, convier com pessoas diferentes, quem sabe enricar. A
professora, mulher viajada, deu aula em locais distantes, e tinha felizes
lembranças de Cananéia, quase no fim do mundo. Ela aprovava os sonhos dos dois
adolescentes; como gostaria de fugir junto com eles.
         Sólita
mantinha um romance secreto com o inimigo mortal do Capitão do Mato, e o homem
vingativo deu a liberdade à Caiobá, pois sabia que Melissa estava prometida à
um rico sitiante da região. Além da liberdade deu dinheiro, acoitou a fuga, fez
um roteiro seguro, armou a confusão.
         Quando
os piratas atacaram a vila, raptaram algumas donzelas; donzelas valiam o triplo
de uma não donzela. O inimigo do Capitão do Mato, no entrevero da briga com os
corsários, deu fuga ao casal, mas culpou os piratas pelo rapto.
         O
Capitão do Mato passou anos e anos à procura da filha, jamais a encontrou.
Mostrava a foto de Melissa, mocinha e montada num belo cavalo, à todos os
viajantes que aportavam na vila. A professora Lurdinha Sólita casou com o
inimigo do Capitão do Mato, e foram morar em Paris, e passavam férias na
Itália, na casa de Caiobá e Melissa.
         “Não
existem segredos”, disse o contador de histórias; – “Uma carta de Lurdinha
Sólita à uma prima que morava em Cananéia foi encontrada. Remetida da França no
final do século XVIII, ficou esquecida em um velho baú por duzentos anos.”
Gastão Ferreira/2016
                   

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