Na garupa da bicicleta
Dito
Sete namorava Rosinha há sete anos, eis o porquê do apelido. Começo dos anos
cinquenta do século passado, todos os habitantes da cidade sabiam que a luz
apagava às 22 horas, e que meia hora antes de desligarem os geradores, soava um
apito de alerta. Quem estava fora de casa corria apressado, as festinhas
acabavam, os bares fechavam as portas, os pais dispensavam os namorados das
filhas. Bem-vindo à escuridão, onde tudo pode acontecer.
Sete namorava Rosinha há sete anos, eis o porquê do apelido. Começo dos anos
cinquenta do século passado, todos os habitantes da cidade sabiam que a luz
apagava às 22 horas, e que meia hora antes de desligarem os geradores, soava um
apito de alerta. Quem estava fora de casa corria apressado, as festinhas
acabavam, os bares fechavam as portas, os pais dispensavam os namorados das
filhas. Bem-vindo à escuridão, onde tudo pode acontecer.
Do
bairro Porto do Ribeira até o centro da cidade, só areia. Mal soou o apito, e
Dito Sete se despediu de Rosinha. O caminho era escuro, deserto. Após o sitio
de Nhô Euclides, um bambuzal, poucas casas com luz elétrica no início da Vila
Garcez. Montado em sua bicicleta marca Caloi, com dínamo, espelho retrovisor,
freio de mão, buzina, sonho de ostentação dos moços daquela época, Dito Sete se
sentia feliz; jamais teria o apelido de Dito Oito, ficaria no Sete, e casaria
com Rosinha antes do final do ano.
bairro Porto do Ribeira até o centro da cidade, só areia. Mal soou o apito, e
Dito Sete se despediu de Rosinha. O caminho era escuro, deserto. Após o sitio
de Nhô Euclides, um bambuzal, poucas casas com luz elétrica no início da Vila
Garcez. Montado em sua bicicleta marca Caloi, com dínamo, espelho retrovisor,
freio de mão, buzina, sonho de ostentação dos moços daquela época, Dito Sete se
sentia feliz; jamais teria o apelido de Dito Oito, ficaria no Sete, e casaria
com Rosinha antes do final do ano.
Naquela
quase escuridão divisou um homem sentado à beira da estradinha, e que lhe
acenava. Se aproximou e reconheceu Seu Januário. “Nossa! Há quanto tempo não
via Seu Januário.”
quase escuridão divisou um homem sentado à beira da estradinha, e que lhe
acenava. Se aproximou e reconheceu Seu Januário. “Nossa! Há quanto tempo não
via Seu Januário.”
–
Que bom que uma alma viva apareceu! É você, meu amigo Dito Seis? Estou meio
aperreado, perna bamba, na espera de um cristão de bom coração, que possa me
dar uma carona até a cidade.
Que bom que uma alma viva apareceu! É você, meu amigo Dito Seis? Estou meio
aperreado, perna bamba, na espera de um cristão de bom coração, que possa me
dar uma carona até a cidade.
–
Ninguém vai surgir, Seu Januário, o apito soou há uns quinze minutos. Senta no
bagageiro da bicicleta, que eu levo o senhor.
Ninguém vai surgir, Seu Januário, o apito soou há uns quinze minutos. Senta no
bagageiro da bicicleta, que eu levo o senhor.
–
Obrigado, semenino! Depois que escureceu, você foi o único vivente à passar no
caminho do porto.
Obrigado, semenino! Depois que escureceu, você foi o único vivente à passar no
caminho do porto.
–
Alguma novidade, seu Januário?
Alguma novidade, seu Januário?
–
E velho tem novidade, meu filho? Agora é só descanso, aproveito a noitinha para
desenferrujar os ossos, e depois é uma soneira só.
E velho tem novidade, meu filho? Agora é só descanso, aproveito a noitinha para
desenferrujar os ossos, e depois é uma soneira só.
–
Estamos quase chegando ao centro da cidade, vou deixar o senhor na sua casa,
ainda temos dez minutos de luz elétrica.
Estamos quase chegando ao centro da cidade, vou deixar o senhor na sua casa,
ainda temos dez minutos de luz elétrica.
–
Não carece, semenino! Fico ali na próxima esquina, estou morando pertinho do
Supimpa, e posso ir caminhando até lá. Que o Bonje te abençoe pela carona! E
que você tenha uma vida longa, meu filho.
Não carece, semenino! Fico ali na próxima esquina, estou morando pertinho do
Supimpa, e posso ir caminhando até lá. Que o Bonje te abençoe pela carona! E
que você tenha uma vida longa, meu filho.
Dito
Sete encontrou alguns amigos já perto de sua casa, e comentou com eles sobre o
Seu Januário; – “Seu Januário está bem aíva, me chamou pelo apelido antigo,
Dito Seis, coitado! A perna está um bagaço.”
Sete encontrou alguns amigos já perto de sua casa, e comentou com eles sobre o
Seu Januário; – “Seu Januário está bem aíva, me chamou pelo apelido antigo,
Dito Seis, coitado! A perna está um bagaço.”
–
Impossível, Dito Sete! Seu Januário morreu no ano passado, naquele mês em que
você foi pescar na Barra.
Impossível, Dito Sete! Seu Januário morreu no ano passado, naquele mês em que
você foi pescar na Barra.
–
Tá brincando! O velho falou que mora bem pertinho do Supimpa. Brincadeira boba,
hem amigo!
Tá brincando! O velho falou que mora bem pertinho do Supimpa. Brincadeira boba,
hem amigo!
–
Dito Sete, o que tem na esquina do Supimpa?
Dito Sete, o que tem na esquina do Supimpa?
–
O cemitério da cidade…
O cemitério da cidade…
–
Pois é, é onde mora o Seu Januário desde que morreu.
Pois é, é onde mora o Seu Januário desde que morreu.
Dito
Sete desmaiou. Mais uma lenda urbana nasceu. Bem-vindo à escuridão, onde tudo
pode acontecer.
Sete desmaiou. Mais uma lenda urbana nasceu. Bem-vindo à escuridão, onde tudo
pode acontecer.
Gastão Ferreira/2016
Gastão Ferreira começou a publicar seus textos aos 13 anos. Reconhecido por suas crônicas e poesias premiadas, suas peças de teatro alcançaram grandes públicos. Seus textos e obras estão disponíveis online, reunidos neste blog para que todos possam desfrutar de sua vasta e premiada produção.