Memórias do circo

         Nasci
em pleno pampa gaúcho, entre coxilhas e o azul do céu; para quem não conhece,
as coxilhas são como imensas dunas verdes, quando se encontram formam pequenas
matas chamadas “capão”, é ali que vivem os animais silvestres, e saciam a sede
nas “sangas” cristalinas. Sangas são aquíferos, e toda a coxilha possui uma
corrente de água; as coxilhas são elevações que brotam dos campos, e assim é do
Rio Grande do Sul, até a Patagônia.
         Aos
seis anos de vida mudamos para Esteio, cidade próxima à Porto Alegre. Esteio
era tão pobre que chamavam de “faixa” a avenida principal, e o único ponto
turístico era o Morro do Sapucaia, um morrinho triste onde um avião se
espatifara. Hoje Esteio é cidade grande, e muita coisa mudou, estou contando da
velha Esteio, de sessenta anos no passado.
         Hoje
penso que Esteio era um caminho, um ponto de parada; todo o ano passava um
circo na cidade, ficava por uns quinze dias, também montavam acampamentos os
ciganos, sempre ao lado do Clube Aliança, bem no centro da cidade. Nada posso
dizer sobre os ciganos; éramos proibidos de passar perto do acampamento, pois
segundo as nossas mães, os ciganos roubavam crianças.
         O
circo era uma festa… Ao chegar na cidade anunciavam os espetáculos na rua. Um
palhaço, os artistas do circo, os leões, e os macacos, chamavam o respeitável
público para as apresentações; – “O palhaço, o que é?”, “É ladrão de mulher!”.
         O
teatro circense! As crianças vibravam, guardei para sempre aquelas emoções;
dramas inesquecíveis, donzelas à procura de um herói, punhais reluzindo na
escuridão, tragédias apavorantes, a mocinha sofredora sempre com um final feliz…
Um universo mágico que me persegue até hoje, e mora nos meus escritos; adoro
dramalhões! Escrevo para quem gosta de circo.
         O
dono do circo comprava cachorro de rua, era a comida dos leões. Nunca
conseguimos vender um cão vadio ao dono do circo. Primeiro, jamais conseguimos
pegar um cachorro de rua para trocar por ingressos, e segundo, os velhos leões
não eram alimentados com cachorros.
         Minhas
memórias do circo são lembranças de uma criança de oito anos, encantado com
novidades. Hoje sei da pobreza de tudo aquilo; velhos leões desdentados,
chipanzés acorrentados, zebras com as cores desbotadas, atrizes decadentes e
envelhecidas se passando por donzelas adolescentes, palhaços com sorrisos de
fome, lona remendada, animais e artistas em fim de carreira.
         O
circo seguia sua estrada, e nós ficávamos por meses apresentando ao distinto
público o espetáculo assistido com os olhos esbugalhados, e o coração aos pulos;
apaguem as luzes, silêncio, Bela adormecida acordou… Viva o circo! Um grande
viva à todas as crianças que aprenderam a amar o teatro através das artes
circenses… Obrigado palhaço! Mas, o palhaço o que é? É um ladrão de mulher!
Gastão Ferreira/2016  

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