Linda Flor

         Linda
Flor desceu do último ônibus vindo da cidade grande, duas malas pequenas, uma
valise, um sorriso, e nada mais. Dormiu num hotel, e pela manhã mudou-se para
uma pensão; alguns dias depois, alugou um ponto comercial, e montou um salão de
beleza. Trabalhava sozinha.
         O
pedreiro Romeu foi quem reformou o salão; rapaz namorador, um tanto cachaceiro,
bom dançarino, fama de destruidor de lares. Se enrabichou por Linda Flor,
sofreu, chorou; de uma hora para outra se entregou à Jesus, disse que não era
mais do mundo, casou às pressas com Maria das Dores, sua primeira namorada.
         O
povo aumenta, mas não inventa! Qual o segredo de Linda Flor? Moça de sorte, só
namorava gente endinheirada; ganhou um carro de um político, outro lhe deu uma
moto. Um empresário a presenteou com um apartamento na praia. Pena que os
namoricos não duravam; casamento, que é bom! Nem pensar.
         Carne
nova na cidade, formou fila querendo comprar; muitos compraram, mas nenhum
abriu o bico, e quando indagados negavam. A rapariga era poderosa, bastava um
telefonema para um admirador secreto, e o problema era solucionado na hora. Sua
casa tinha monitoramento, ninguém entrava sem ser filmado.
         Linda
Flor estava rica; vendia um carro, e ganhava outro. O homem mais abastado da
cidade lhe deu uma lancha. Ninguém entendia! Tão bela, e sempre sozinha.
Somente uma vez foi flagrada aos beijos e abraços. Estava no exterior, e com um
homem casado, um dos poucos milionários da cidade.
         Dito
Pardal fugiu da cadeia, pulou diversos muros, foi visto entrando no terreno de
Linda Flor, desapareceu. A polícia interrogou Linda Flor, ela negou; deu alguns
telefonemas, choveram advogados. O delegado lembrou das câmaras de
monitoramento, solicitou à apreensão.  Os
defensores de Linda Flor ligaram para os patrões; a coisa estava feia! Que
fazer?
         Linda
Flor foi liberada, recebeu uma ligação de alguém importante; era urgente um
encontro, o encontro devia ocorrer em um sitio, na zona rural. Na estrada, o
carro de Linda Flor foi metralhado, tanto tiro que quase virou peneira, depois
jogaram gasolina no que restou; um horror!
         Ninguém
sabe, mas tentaram comprar o silencio do médico legista, não conseguiram; no
atestado de óbito estava bem legível, Linda Flor se chamava Tancredo de Matos,
e era um travesti.
Gastão Ferreira/2016
        
        

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