Fim dos tempos

         Ocorreu
algo muito estranho aqui no sitio, coisa para chocar o povo pacato, ordeiro e
religioso; um estupro. Foi após o baile para escolher a “Princesa das Festas
Juninas”. Aqui cada bairro rural tem suas fogueiras, fandangos e comidas caiçaras,
tipo assim, um mini Revelando São Paulo, ou seja, um mini Revelando a Zona
Rural.
         A
garota Dondinha foi a grande vencedora da noite, inovou no “traje típico”, uma
tanga feita de folha de bananeira. Afirmou que a veste era uma homenagem às
origens indígenas do povo caiçara. No final do baile foi embora sozinha e
aconteceu a tragédia. Amigas e familiares estão revoltados, e já temos um
retrato falado do suspeito.
         Segundo
Dondinha, eram quatro horas da manhã de uma noite sem luar, ela caminhava lentamente
devido ao consumo excessivo de quentão, quando foi subitamente atacada por um
elemento desconhecido, difícil de identificar, mas pelo pouco que recorda, era
um moreno alto, entre um metro e oitenta e um metro e oitenta e cinco.
Simpático, perfumado, musculoso, corpo sarado, dentes perfeitos, um bigode
malandro, olhos verdes puxando para ardósia, boca sensual, um pequeno furo na
orelha direita. Não! Não usava brinco. Uma mini tatuagem de uma cobra naja
envolta do umbigo, bermuda maneira, camisa polo azul, cueca preta de algodão, tênis
de marca, corrente de ouro com a imagem de Santa Lulinha (a protetora dos
pobres), duzentos Reais na carteira, e sem documentos de identificação.
         A
sem-vergonhice foi tanta que o tarado abusou três vezes da pobre Dondinha; às
quatro, às quatro e meia e às cinco da manhã. Fez coisas que até Deus duvida e
que dona de bordel nem imagina. A menina está traumatizada, querendo encontrar
face a face o safado, e assim exigir uma reparação.
         As
moças solteiras estão vigilantes; querem pegar o tarado e vingar o ultraje à
menina Dondinha; – “Onde já se viu! Abusar de uma ingênua criatura de apenas
dezoito anos. Quero ver fazer isto com uma de nós! Venha malandro! Apareça!”
         Sei
não! Conversei com meu primo Barrabás, o cachorro do Pastor Sillas, e ele disse
que assistiu ao vivo e a cores toda a sacanagem, e que a menina Dondinha está
viajando na maionese; a moça puxou um baseado junto com o Nico Cheiro de Mato,
foi embora sozinha e no caminho se abraçou com um coqueiro, e ficou se declarando
para a árvore… Surtou! Rolou na lama, tirou a tanga, falou muita bobagem…
Foi possuída por Satanás… Coisa horrível… Chocante.
         Estou
acompanhando a diligencia para descobrirem o tarado. Como cachorro não fala,
não posso dizer o que sei; dá uma pena de ver o vão esforço da mulherada que
querem porque querem pegar o safado.
Omisso, um cão rural
Gastão Ferreira/2016
          
            

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