Festival de inverno

         Com
a mudança de madame Marcia Cristina de Oliveira Barros, a nossa Dona Cricri,
aqui para o sitio, muita coisa mudou. Dizem de boca pequena que ela sairá
candidata à vereadora na próxima eleição. Mulher fina, acostumada com o bom e o
melhor, é a nova fonte de fofocas no bairro. Que coisa feia! A dondoca comprou
uma garrafa de pinga Paletó Vermelho no boteco do Seu Nico, e já espalharam que
ela era alcoólatra. Tudo mentira! A cachaça era ingrediente para um delicioso e
refinado quentão.
         Conversei
com o Castrado, digo Kyllan Boy, o gato de Dona Cricri, e ele contou das muitas
visitas noturnas. Só gente estiloza e cheia de grana; são os patrocinadores da futura
campanha. Não! Ninguém deu um centavo para madame. Nada de dinheiro, mas muitas
dicas. A ideia aceita foi a de realizarem um Festival de Inverno na roça, uma
novidade. A entrada será paga, e a receita obtida irá para um fundo de
campanha.
         Até
onde consegui bisbilhotar, um grande músico será o astro do evento; finalmente
vou assistir a um show de alguém importante; o nome do artista é “El Cantante”.
O homem se apresenta com a esposa, uma cigana paraguaia, Lenita de los
Prazeres, que além de ler a sorte, declama e conta piadas, tudo em portunhol.
Olé!
         O
gato Castrado tem uns dois anos de idade, mas o cão Feroz é bem idoso, está com
madame Marcia Cristina há mais de quinze anos, e sabe das coisas; de excelente
memória, lembra que “El Cantante” foi um casinho passageiro de Dona Cricri,
pois entre um casamento e outro, a velhota não pode ficar sem um cobertor de
orelhas. Confesso que não entendi! A mulher deve ser muito friorenta, pois Feroz
conheceu vários agasalhos da dondoca.
         Foi
madame quem colocou o nome artístico de “El Cantante” no moço violeiro, o nome
real é Severino Pinto Caiado, um baiano da gema. A cigana nunca foi cigana, e
sim uma trapezista de circo mambembe desempregada, mas como Dona Cricri acha
que gente de sítio é tudo jacu, o truque não será notado. A grana arrecadada
não irá para um fundo de campanha, será dividida entre madame e “El cantante”,
não é primeira vez que fazem isto.
         Fiquei
traumatizado! Dona Cricri tão beata, sempre falando em Jesus, participando de
quermesses, fazendo campanha de agasalhos, beijando a mão do bispo, e agindo
deste modo? Que sacanagem! Feroz achou graça no meu chilique, e disse que
humanos são assim mesmos, todos aproveitadores do suor alheio, e que eu tenho
muito à aprender com os sapiens.
         Minha
dona anda toda enfezada com Festival de Inverno, e a menina Edicleusa, sua
filha, não vê à hora de tirar a sorte com a cigana paraguaia. Pena que não falo
a linguagem humana! Gostaria de contar a presepada que estão armando. O
Festival é só um tira-gosto, depois virão saraus, fandangos, bingos e muitas, e
muitas rifas. E o povão se babando todo, pondo a maior fé em Dona Cricri. Como
tem gente que gosta de ser enganada!
         Que
bom que cachorro não paga ingresso! Já combinei como minha paquera Laika das
Dores de nos encontrarmos no evento, depois eu conto como foi a festa. Parece
que nossos trinta e cinco pré-candidatos estão armando para madame Oliveira
Barros, acho que teremos baixaria, e forrobodó em sítio é coisa feia, vamos
aguardar as novidades.
Omisso, um cão rural
Gastão Ferreira/2016       
                                                                                                                                                                      

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