Na Fazenda do Cambicho

         Pouco conhecem o bairro Una da Aldeia,
município de Iguape, famoso no início do século XVIII, próximo à Serra da
Juréia, foi grande produtor de farinha de mandioca, peixes de água doce, suinocultura,
produtos agrícolas. Até os dias atuais, só se chega por lá de canoa. Na
atualidade, tem poucos habitantes.
         Terra de quilombolas, de onças e outros
animais nativos da mata atlântica, de casas distantes uma das outras, muitas
lendas antigas ainda sobrevivem por lá. Naquelas paragens existe uma herdade, coisa
de antanho, quase esquecida no meio da mata, foi a sede do principal engenho, conhecido
como Cambicho, tem o Miguel como caseiro há vinte e sete anos.
         Casa imensa, moveis seculares,
assoalhos de madeira, grossas paredes, construção do século XVIII, período
áureo em que Iguape se sobressaia na economia nacional. A grande senzala em
ruinas lembra que centenas de escravos ali habitaram.
         Todas as casas antigas guardam
segredos, todas têm seus fantasmas, suas visagens, seu ouro enterrado. No
Cambicho não é diferente, só que as assombrações são invisíveis, que o diga, o
Miguel.
         Caiçara valente, o moço Miguel! Sozinho
no casarão, uma noite acordou com passos pela casa, quem sabe um caçador de
tesouros alheios, pensou. Sem medo, era o guardião da fazenda, não podia
permitir a entrada de estranhos no local. Aqueles passos indicavam visita
indesejável, o madeirame do assoalho rangia, os passos na escada indicavam que
o invasor se aproximava do quarto.
         Era a primeira vez que enfrentaria
alguém dentro da casa, preparou-se para o pior. Quando os passos se detiveram
frente à porta do quarto, tomou coragem, e de supetão escancarou a porta; um
vento frio invadiu o ressinto, marcas de pés descalços na soleira da porta, pegadas
que vinham, mas que não voltavam. Visita de um antigo morador? Tudo envolto em
silêncio, o casarão dormia, e talvez sonhasse com tempos melhores. Miguel
fechou a porta do quarto… Na sede da fazenda do Cambicho é assim; todos os
fantasmas são invisíveis.
Gastão
Ferreira/2016      

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