Entre mundos

         Ali
o silencio acorda em meio ao cantar dos pássaros, o alarido dos bugios, o
estridente grito de um gavião ou o urro de uma onça feroz. Entre pedras, o puro
líquido que desce da montanha formou um pequeno lago, um bebedouro natural para
os diversos habitantes da mata atlântica.
         Paulo,
um caçador sedento se debruçou sobre o lago; – “A imagem é o meu reflexo, mas
não sou eu refletido na água! Este olhar não é o meu olhar, e este sorriso
feliz não é o meu sorriso; de quem será?”
         –
“Também me chamo Paulo”, respondeu a figura, “e moro em Floresta.”
         –
“Floresta? Esta mata que nos cerca?”, perguntou Paulo.
         –
“Não! Floresta uma cidade de Gaia.”, foi a resposta.
         –
“Gaia! A personificação da natureza?”
         –
“Não! Gaia o planeta irmão da Terra.”
         –
“Como pode acontecer isto?”, pensou Paulo.
         –
“O lago é um portal interdimensional. Muitos lagos são portais ocultos, e, é
através deles que muitos seres do meu mundo visitam o seu mundo…”
         –
“Não posso acreditar! Provavelmente estou tendo alucinações.”
         –
“É daqui do meu planeta que saem os sacis, os curupiras, os duendes. Seres
reais no meu mundo e visagens no seu… São inofensivos.”
         –
“Gostaria de fazer uma troca, somos fisicamente iguais! Que tal passar alguns
dias na Terra para que eu possa conhecer Gaia?”
         –
“Impossível Paulo! Não sobreviverias em Gaia.”
         –
“Se nossos mundos são gêmeos, óbvio que consigo viver em Gaia!”
         –
“Vivemos em paz, nos comunicamos pelo pensamento, somos essencialmente éticos,
a maldade não faz parte do nosso dia a dia… Nos teleportamos, entendemos e
conversamos com os animais, nossos irmãos menores, e não acumulamos bem
materiais; vivenciamos plenamente a experiência existir.”
         –
“Gaia é o que chamamos de paraíso, entendo que ainda não tenho condições morais
de visita-la.”
         –
“Um dia terás! Todos terão tais condições. Não basta entender, o importante é
praticar; seja honesto, humilde, respeite a natureza e aos teus semelhantes,
ama o teu próximo como a ti mesmo. São pequenas dicas para um futuro melhor.”
         –
“Alguém há muitos séculos nos ensinou isto! Jesus.”
         –
“Ele também esteve entre nós. Sacia a tua sede Paulo, e não comente do nosso
encontro; sou apenas um mensageiro, paz profunda, amigo!”
         Paulo
notou um leve tremeluzir na superfície do lago, e sabia agora que a imagem
refletida era realmente a sua; – “Sonhei!”, pensou. Bebeu da água pura, pegou
da espingarda e voltou a seguir a pista deixada por um tateto já ferido que se
escondia na mata; – “Hoje à noite comerei porco do mato.”
         Em
Gaia, um outro Paulo informou ao supervisor de contato extra mundo; “- O Paulo
da Terra não entendeu o recado, vou tentar com outra pessoa… Lamento!”
         Na
escuridão noturna, a lua espia o singelo laguinho, um humilde e desconhecido
portal interestelar. O curupira sai da água e busca socorrer um tateto ferido
pela imperícia de um caçador. Na árvore mais alta, uma harpia, a rainha das
aves de rapina, observa em silencio; – “O homem, o ser que é a voz da natureza,
o bicho mais inteligente da Terra, é o nosso maior inimigo.”
Gastão Ferreira/2016
        
        

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