Colinho de mãe

         A história é antiga, começou em 1528, a mocinha birrenta
brigou feio com a mãe, tirou o que pode da velha. Mamãe Cananéia sofreu
horrores nas mãos da filha ingrata. Como diz o ditado, “o tempo é o melhor
remédio”. A velhota deu a volta por cima e hoje está no maior desfrute, e a
filha? A filha se lascou.
         A menina moça bem que aproveitou a vida, ganhou até título
de Princesa; nobreza efêmera, perdeu tudo o que ganhou a duras penas, mas
perdeu por amor. Todos os seus pretendentes deram o golpe do baú.
         Os tempos estão difíceis. Ontem colocou a viola caiçara no
saco e entregou os pontos. Carente, aos prantos procurou o colinho de mamãe.
Foi recebida com tainha na folha de banana e licor de cataia; exagerou nos
comes e bebes, abriu o coração; – “Mamãe! Eu quero morrer. Eu quero morrer!”
         – “Muita calma nesta hora! O que aconteceu Princesa?”,
perguntou mamãe Cananéia, fazendo caras e bocas de preocupada.
         – “Cansei, mamis! Minha vida não é um sonho cor de rosa.”
         – “Nenhuma vida é um sonho cor de rosa, minha filha, vida
boa só no face book, e olhe lá! Abra seu coração querida.”
         – “Tenho vergonha! A senhora pode se zangar ao ficar ciente
de meus segredos.”
         – “Eu zangada! Mais do que você me magoou ao fugir de casa,
tão novinha, impossível! Desembucha logo guria!”
         – “Mamãe! Não sou a santinha da família. A cada quatro anos eu
troco de amante…”
         – “Minha Nossa Senhora de Cananéia! Minha filha é uma
devassa! A ovelha negra da família…”
         – “Nada de chiliques, mamãe! A senhora também nunca foi
santa… Até que resisti aos apelos de Eros no período imperial, mas veio a
República, e surgiram muitos pretendentes, afinal eu sou uma Princesa…”
         – “De que adianta ser Princesa e piranha…”
         – “Menos, mamãe! Eu não posso fugir de minha sina, há cada
quatro anos, vários candidatos disputam minha nobre mão, e até hoje nenhum
deles me fez feliz…”
         – “Filha! Você já teve cento e vinte amantes, e nenhum deles
foi o homem de sua vida?”
         – “Alguns repetiram a doze e ficaram oito anos, alguns
voltaram depois de certo tempo longe do trono, mas não retornaram por amor,
voltaram só por aquilo…”
         – “Meu Deus! E o que é aquilo? Não é o que estou pensando?”
         – “Voltaram pelo meu ouro, mãe! Pelo meu dinheiro, para a
vida boa ao meu lado…”
         – “Minha filha! Então você sempre foi uma mulher vítima de
garotos de programa? Onde chegamos!”
         – “Não mãe! Eu me entreguei de corpo e alma à todos eles,
mas foi por vontade do povo…”
         – “Que povinho ordinário o seu, hem filhota!”
         – “É o povo quem elege meus amantes; gente simples, se
trocam por dentaduras, contas de água, botijão de gás, e depois sofrem comigo
durante quatro anos, pois nada podem reclamar…”
         – “Como não podem reclamar? São mudos, os infelizes?”
         – “Não, mãe! Eles vendem o voto, e quem se vende perde o direito
de reclamar…”
         – “Mas que vidinha de cão!”
         – “O pior mãe, é que os amantes quase sempre são velhos;
falam muito de amor, mas só da boca para fora. A primeira coisa que fazem, após
o casamento, é comprar um carro zero, encher o palácio com a parentada, almoçar
nos melhores restaurantes, arrumar uma outra amante, sempre mais jovem e cara.
Meu Bonje! Como eu sofro.”
         – “Oh minha filha! Agora percebo melhor o teu drama, mas
para tudo se dá um jeito nesta vida… Ouve os conselhos da tua velha mãe!”
         – “Mamãe! Me ajuda…”
         – “A primeira providência é você falar com o povo; peça à
ele que escolha uma pessoa honesta, digna, que possa amar de verdade a
Princesa. O poder de escolha é do povo, filha!”
         – “O povo quer mais é que eu me lasque! Quer comer e beber
de graça, soltar foguetes, lamber a mão do novo rei…”
         – “Complicado, hem!”
         – “Mamis! Eu já tive amantes que foram expulsos do palácio
real por roubarem o tesouro…”
         – “Que vergonha! E foram presos?”
         – “Que nada! Livres e se achando os bambambãs…”
         – “Acho melhor você abandonar o reino e voltar para a casa
da mamãe…”
         – “Este anos teremos eleição. É a última chance de ser
feliz. Tem gente boa concorrendo à minha mão; quem sabe não será o verdadeiro
amor se apresentando? Vou dar um tempo, mas se der tudo errado, desisto e volto
ao primeiro lar.”
         – “Venha sim, filhota! O colinho da mamãe te aguarda, minha
Princesinha querida…”
         – “Oh mamãe Cananéia! Como a senhora é generosa.”
         – “Mãe é para isto, filha! Agora me dá um abraço bem
gostoso, e fique esperta minha guria.”
Gastão Ferreira/2016
        

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