Chuvas de verão

         Era
uma tarde de verão igual a tantas outras; Dona Margot espionou o céu e foi
taxativa; – Vem chuva e das grandes! Melhor recolher as roupas do varal.
         –
“Como a senhora pode ter certeza disto?” perguntou a pequena Lisbeth de apenas seis
aninhos.
         –
“Experiência, minha netinha! Repara que os urubus estão voltando rapidamente
para a montanha e quando isto acontece é sinal de chuva.”
         –
“Urubu não pode se molhar, vovó?”
         –
“Urubu molhado não voa… “
         –
“E aqueles urubus brancos também vão se esconder na montanha?”
         –
“Não são urubus, querida! São garças que procuram abrigo…”
         –
“Mas tem umas aves pretas perto delas e são muitas…”
         –
“Aqueles são biguás, minha linda…”
         Estava
assim a vovó entretida com a sua netinha quando começou o maior toró do ano;
tudo alagou e a cidade inteira parou para assistir ao temporal. Ruas
intransitáveis, água invadindo casas e comércios, sacos de lixo entupindo
bueiros, trastes sendo carregados pela enxurrada. Cães de rua agora sem rua e
ruas parecendo rios.
         –
“Vovó! Que coisa horrível. Quanta imundice é carregada pela água. Deviam
prender o prefeito.”
         –
“Por que, minha netinha?”
         –
“Porque as bocas de lobo entupiram e não tem como a água escorrer…”
         –
“É verdade! Vamos mandar prender este prefeito que vive sujando a rua…”
         –
“Vovó! O prefeito só anda de carro e ele não joga coisas na rua…”
         –
“E quem joga, minha neta?”
         –
“O povo, vovó! É o povo quem joga…”
         –
“Então não podemos reclamar… Somos nós mesmos quem sujamos as ruas. Somos
muito mal educados e adoramos pôr a culpa nos outros…”
         –
“Vovó, vamos espiar no falsebook se já estão postando fotos da enchente!”
                   Pelas
fotos notaram o tamanho do estrago; a Fonte do Senhor alagada e os peixes
fugindo do laguinho. O Centro de Eventos virou um piscinão, o lagamar emendou
com a praça da orla do mar pequeno, a rodoviária ilhada, a estrada para a Barra
intransitável, o velório municipal cheio de água, os comerciantes tentando
salvar suas mercadorias…
         –
“A coisa foi feia! Reparou que não tem nenhuma foto de criança tomando banho de
chuva?”
         –
“É mesmo! Parece que a chuva já passou. Vamos lá fora espiar o estrago! Vamos
vovó?”
                  Dona Margot e sua netinha Lisbeth
olhavam a rua quase seca; a vizinhança tentava arrumar os estragos. Dona Milde
depositou várias sacolas com lixo caseiro na calçada, Seu Fronio pôs alguns
galhos de arvores junto com outros detritos no passeio público, o garoto
Juninho Serelepe jogou o que restou da bicicleta detonada pela chuva e madame
Cleide atirou alguns livros molhados junto ao monturo… 
         –
“É! Precisamos mandar prender o prefeito.” Disse vovó Margot e sua netinha
Lisbeth de seis aninhos, fez de conta que não entendeu.
Gastão Ferreira/2016
        

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