Calado estava, calado fiquei.

         Em
1964 eu tinha dezesseis anos; uma tarde estava sentado numa praça no centro de
Porto Alegre, um senhor de idade sentou ao meu lado, ele jogou milho para os
pombos, o velho era Mário Quintana. Calado eu estava, calado fiquei.
         Em
1972 eu estava com vinte e quatro anos, morava na avenida São João em São
Paulo, leitor voraz, todo o mês comprava alguns livros. Num sábado pela manhã,
fiquei lado a lado com Chico Xavier na livraria, só nós dois; calado eu estava,
calado fiquei.
         Encontrei
Elis Regina tomando um suco, ela sentou no banco ao lado do meu, estávamos num
bar na Rua Augusta e ela faria um show na boate O Beco; calado eu estava,
calado fiquei.
         Quando
o Papa João Paulo II esteve pela primeira vez no Brasil, o papamóvel deu uma
parada no Anhangabaú, o local estava deserto, eu estava a menos de dois metros,
ele olhou para mim, e sorriu; calado eu estava, calado fiquei.
         Quando
Divaldo Vieira esteve em Iguape, assisti sua palestra na chácara Yanaguisawa;
não fiquei até o fim, eu tinha que abrir o restaurante, e servir os almoços do
dia. Perdi a oportunidade de conversar com alguém que eu admiro.
         Em
São Paulo fiquei lado a lado com muitos famosos; Dercy Gonçalves, Rita Lee, Ney
Latorraca, Glória Menezes, Fernando Henrique Cardoso, Cauby Peixoto, Caetano
Veloso, Armando Bogus, Eva Vilma, Waldik Soriano, e muitos outros; calado eu
estava, calado eu fiquei.
         Hoje,
quando recordo as oportunidades que a vida me deu, de me colocar lado a lado
com pessoas que tanto admirei, eu me pergunto; – “Por que eu calei?”, não
reclamo dos artistas, nunca fui chegado à tietagem. Mas, Mário Quintana! Um dos
poetas que mais estimo. Tudo bem! Era jovem, talvez um tanto tímido.
         Chico
Xavier, um homem que daqui à mil anos permanecerá na memória do mundo, e eu nem
para agradecer o muito que ele fez, e eu lia seus livros. Que vergonha!
         Escrevo
muito, tenho muitos leitores, a maioria nem me conhece pessoalmente; converso
com tantas pessoas desconhecidas, por vezes me surpreendo, pois quando perguntam
o meu nome, e eu o digo, a surpresa; – “Nossa! Você é o escritor?”, e aí tudo
muda, sou mimado, elogiado, recebo convites para um café, um almoço, um
bate-papo com a família.
         Assim
fico sabendo de novos causos, histórias antigas, lendas urbanas quase
esquecidas. Aprendi que se a vida me colocou perto de alguém, devo aproveitar o
máximo, nada de timidez, nada de se achar a última manjuba do Ribeira; a
simplicidade espanta os esnobes, mas atrai quem valoriza o saber, e o
conhecimento.
         Tenho
muitos conhecidos, meus amigos se contam nos dedos; demorei algum tempo para
valorizar o SER, e não o TER, cheguei ao mundo de mãos vazias, de mãos vazias
partirei. Não tenho queixas, a vida foi muito boa para mim; tive do bom e do
melhor, e sem correr atrás da fortuna. Alguns percalços, pois nada é perfeito;
eles me ajudaram à levantar. Foram as pedras com que construí a minha morada, e
fortaleceram a minha alma.
         Penso
que não tenho inimigos, existem alguns ódios dissimulados em ciúmes doentios,
cartas anônimas, olhares que se julgam punhais. Pura bobagem! Há muito me
livrei destas picuinhas. Aprendi, à duras penas, que o único ser que pode me
ferir, sou eu mesmo. Minha liberdade interior tem um alto preço, quem realmente
me conhece, sabe disso.
         Assim,
calado estou, calado ficarei. A vida é muito breve para carregar mágoas, e o
peso da mágoa retarda qualquer jornada. Sei que um dia saberei de coisas que
hoje desconheço, um dia, antes que a vida se despeça, meu lobo dormirá em
definitivo, e eu voltarei vitorioso de mais uma batalha; eu torço por mim.  
Gastão Ferreira/2016
        
        

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