Alo! Atenção… Nota de falecimento.

Alo!
Atenção… Nota de falecimento. A cidade inteira emudeceu; as conversas
silenciaram, as crianças pararam de correr, as fofoqueiras sustaram a fofoca, o
remador não remou, o caminhante atenuou o passo. Deu uma pane no autofalante, e
o sacristão não concluiu o anúncio fúnebre. Quem morreu? Indagou o ateu. Quem
desencarnou? Perguntou o espírita. Quem foi sentar à direita do Pai? Questionou
o evangélico. Quem bateu as botas? Quem foi para o beleléu? Todos se perguntavam
curiosos.  
A resposta
estava no face book; – “Meus sentimentos à família do coronel Palhares, que ele
seja recebido entre os anjos do Senhor.”, “Que descanse em paz quem tanto fez
por nós, a cidade amanheceu mais triste.”, “Mais uma estrela brilha na noite
escura da vida, siga em paz coronel Palhares.”, “Morre o homem, fica a história.
“Mil e duzentas pessoas comentaram o passamento do rico, famoso, metido e
poderoso coronel Palhares.
Milhares de
pessoas passaram pelo guardamento; algumas foram apenas confirmar se o desafeto
estava realmente morto, outros consolar a jovem viúva, marcar presença, sair no
jornal, comer dos finos quitutes servidos no necrotério. Poucas orações e muita
conversa fiada.
Sete dias
depois do enterro, Palhares acorda do sono dos mortos; – “Que será que
aconteceu? Que fedor é este? Será que fui sequestrado?”, pulou para fora do
túmulo e foi grande o susto.
Primeiro foi
Dona Emerenciana, a primeira esposa, pedindo satisfação das puladas de cerca.
Depois espíritos de crianças abortadas pelas muitas amantes pobres, e que
acusavam o coronel de assassinato premeditado. Inimigos mortos a mando de
Palhares clamavam vingança e atiravam pedras no coronel.
– “Devo
estar sonhando, ou pior, tendo um horrível pesadelo!”, pensou Palhares.
– “Você
morreu Dito Palha.”, gritou Zeca Peralta.
– “Mais
respeito seu mequetrefe! Meu ilustre nome é Benedito Fontes Palhares. Quem se
atreve a me chamar por meu apelido de infância?”
– “Não está
me reconhecendo Ditinho? Sou eu Zeca Peralta, aquele amigo de quem você grilou
as terras e mandou matar.”
– “Você
nunca foi flor que se cheire, Zeca Peralta. Sempre corrompendo e sendo
corrompido, mas posso dar um jeito; pelo que noto sou o mais rico do cemitério!
Quanto quer para calar a boca?”
– “Aqui você
chegou de mãos vazias, igual a todos nós, não tem como me comprar.”
– “Como de
mãos vazias? E o meu ouro, meus dólares, minha grana no exterior? Minha imensa
riqueza conquistada com muito suor e sangue alheio? Onde estão? Onde estão?”
– “No mundo
físico, Dito Palha. Agora somos apenas pensamento e o que conta é aquilo que
plantamos de bom na vida material.”
– “Então
estou em meio a um grupo de bandoleiros, gentinha desclassificada, sem eiras
nem beiras, ralé da sociedade e sem futuro!”
– “Você está
na casa que construiu, Dito Palha. Não tem como fugir daqui.”
– “Socorro!
Socorro! Quero acordar! Sair deste pesadelo.”
A população
compareceu em peso à missa de sétimo dia; uma missa solene celebrada pelo
senhor bispo, um homem muito bom e conhecedor profundo das obras de Deus, sua
mensagem foi sincera; – “Que a paz do Senhor esteja com todos, neste momento
nosso amado irmão em Cristo Jesus, o humilde e generoso coronel Benedito Fontes
Palhares, descansa das lides terrestres na casa do Pai, fez por merecer e
conquistou a duras penas um lugar no céu. Que possamos nos mirar neste exemplo
de virtude… Que a paz esteja contigo, meu amigo coronel Palhares.” 
Alo!
Atenção… Faleceu aos oitenta anos a senhora Maria Silva, trabalhadora rural e
mãe de quinze filhos adotivos. Seu sepultamento será as quinze horas no
cemitério do Rossio, seu corpo não passará pela basílica… Alo! Atenção…
Gastão
Ferreira/2016 
 

Deixe um comentario

Livro em Destaque

Categorias de Livros

Newsletter

Certifique-se de não perder nada!