A convenção

         Pela
primeira vez na história do reino, a Princesa do Litoral se interessou por
política, quis conhecer um a um os candidatos à vereança; o encontro seria
secreto, e foi escolhido uma bela chácara próxima à cidade. Um recanto que
possui um laguinho, lugar charmoso e discreto.
         No
dia aprazado, lá se foi a Princesa com Josephus, o seu secretário,
cabeleireiro, mordomo e cocheiro. Estava feliz, pois ouviria de cada candidato suas
pretensões para livrar o reino da pindaíba total. Logo na subida do Morro do
Espia, estranhou;
         –
Josephus! Acho que está tendo uma gigantesca festa da tainha no Icapara. Veja a
quantidade de veículos subindo o morro… 
         –
A festa do Icapara foi mês passado, majestade. Talvez o povo esteja se
deslocando à Praia do Leste, ela foi repaginada recentemente…
         –
Repaginada? Não conheço a palavra. O que significa?
         –
É um neologismo, pegam um local deteriorado, dão uma arrumadinha por milhares
de Reais, e alardeiam como novidade… Coisas nossas.
         –
Tem gente a pé, de bicicleta… A praia é longe. Para aonde será que está indo
toda esta gente? Espia Josephus! Tem até cadeirante subindo o morro. Meu Bonje!
         –
Algo de muito estranho está ocorrendo! Vamos nos apressar, pois pelo andar da
carruagem teremos um grande engarrafamento.
         Subiram
o morro, desceram o morro, subiram outro morro, desceram e a Princesa levou o
maior susto. No sitio do lago centenas de barraquinhas, tendas de acampamento,
gente vendendo churrasquinho, gente distribuindo santinhos, pessoas dando
tapinhas umas nas outras, a maior festança. Josephus estacionou a carruagem e
pediu informação;
         –
Moço! Qual o motivo da muvuca?
         –
Tá sabendo não? A Princesa do Litoral vem conversar com os futuros candidatos à
vereadores.
         –
Sua Majestade ouvirá as sugestões de meia dúzia de gatos pingados. O que fazem
aqui estas milhares de pessoas?
         –
Oh inocente! São todos pré candidatos, pelos meus cálculos umas oito mil
pessoas.
         –
Mas que loucura! Que exagero! Tanta gente assim.
         –
Uma hora por semana, gasolina grátis, salário dos sonhos, ser chamado de
excelência… Quem não quer? Toma aqui o meu santinho… Pega dois e dê um para
a velhota ao seu lado. Também sou candidato.
         A
Princesa quase teve um saricotico. Um súdito teve a audácia de chama-la de
velhota! Que desaforo. Precisava de uma repaginação urgente; aloirar os
cabelos, uma plástica, talvez. Que humilhação! Na melhor idade ser chamada de
velhota; – “Josephus! Deixe a carruagem aqui, e vamos entrar disfarçados no
evento, não quero ser reconhecida.”
         As
promessas eram exorbitantes, tipo; mais três passarelas para o Rocio, uma ponte
submarina para a Ilha, repaginação da Santa Casa, do Sobrado dos Toledos, da
Pirá, um albergue com mesa e banho para pedintes, comida grátis para cachorro
de rua, ponto de ônibus com ar condicionado, aumento da verba para foguetes.
Novas festas! Qual o problema? Por que só a tainha tem direito a uma festa? E o
robalo, o bagre, o parati, o mandi, a traíra, o cascudo, não merecem uma festa?
         –
Josephus! Vamos embora. Não falarei com os prés candidatos. Não ouvi uma única
palavra sobre coleta de lixo, segurança da população, linhas de ônibus, acabar
de vez com a transferência de mendigos de outras cidades para a nossa, acabar com
os buracos das ruas, com as calçadas impróprias para pessoas da terceira idade.
Oito mil candidatos? Oito mil em busca de beija-mão, do título de excelência!
Nada vai mudar.
         –
Calma majestade! Pior do que está não fica.
         –
Se ficar volto para a casa da mamãe Cananéia, ou então irei morar com minha
filha mais nova; Ilha Comprida.
         –
Ilha Comprida? Que ótima ideia! Posso ir junto?
Gastão Ferreira/2016  
        
             

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